Páginas

domingo, 27 de janeiro de 2013


Não sei o que os meus amigos facebookianos, companheiros de rota existencial, pensam ácerca da importância que os lugares têm na nossa maneira de sentir as coisas e até de dar forma a uma identidade determinada, que coabita, junto com outras, dentro de nós. O nosso Bilhete de Identidade é algo bem mais complexo que um simples cartão de identificação que nos arruma numa determinada circunstância pessoal. Vimos dos que nos deram origem, estamos vinculados ao lugar onde nascemos e pertencemos onde vivemos habitualmente. Mas...e com este "mas" é que começa a verdadeira aventura. Porque com os pés assentes nesse substrato existencial, os percursos que vamos abrindo ao longo da vida levam-nos a acrescentar, a essa identidade, vivências "geográficas" que podem ir ao ponto de criar novas identidades de nós próprios, que, como disse, passam a coabitar, em harmonia, ou não - depende muito de cada um - dentro de nós. Há quem as carregue dentro de si toda a vida, como se fossem troféus, postais, que se colocam na nossa estante das recordações. Há quem as veja mais como um casacão pendurado no armário que vestimos quando nos temos que deslocar a essa identidade. Seja como for (cada um que descubra a sua própria maneira de viver as coisas), a verdade é que quando olhamos para essas vivências muito marcadas que nos vão acrescentando campos ao nosso BI de partida, tomamos consciência de que somos vários e muitos ao mesmo tempo e que isso não nos surpreenda nem nos inquiete. Sou e somos. Um e vários. Um determinado alguém cujo espetro de luz se vai ampliando ao longo da vida e que brilha conforme o dia se anuncia dentro de cada um de nós, nessa ou naquela amplitude de onda em que nos fomos acrescentando, hoje nesta, amanhã naquela outra, com as cores da alegria, nas sombras da tristeza, a intensidade do entusiasmo, a palidez do desânimo, com as tonalidades de Lisboa, Bruxelas, Barcelona, Sofia, Bruges ou Sintra, onde estamos, por onde passámos e de onde recolhemos e nos espalhámos, atomos de aqui e de ali, de uns e de outros, que se agregam dentro de nós para dar corpo, forma e sentido ao enorme caleidoscópio que somos. É assim, meus amigos, que eu vivo várias vidas na vida só que me foi dada a viver e me declino por todos os farrapos que vou escrevendo sempre que tenho tempo e me apetece. Hoje estou em Barcelona. Outro registo. Será porque sou um caleidoscópio. Por isso o escrevo. Não vá esquecer-me. Com chuva, com sol, a cores, a preto e branco, num ou noutro de cada um, tenham um bom dia. E brilhem!

OUTROS NOMES DE OUTROS


Cada um sabe de si. Porque gosta disto, prefere aquilo, se afasta do outro, se centra aqui. Porque corre, porque pinta, escreve, canta, lê, desenha, constroi e conversa. O que o faz rir, o comove, o horroriza, o abala, o convence, o implica, o arrasta ou influencia. E como interioriza e processa tudo o que recolhe e vibra, brilha, irradia. E porque o faz. E como. Eu sei porque o faço, como o faço, o porquê de o fazer e apenas deixo o quando ao aleatório das circunstâncias. E nesse processo intervenho só eu e o que sinto, e o que sinto é o que escrevo, porque escrevo para perceber o que sinto. Haverá em mim átomos de outros e partículas de tudo o que me rodeia e me chega porque não estou só nem as minhas fronteiras são opacas ou impermeáveis, mas guio-me essencialmente pelos meus códigos e pelas leis do meu Universo mais próximo, onde os campos de energia se materializam no que sou e no que sou apenas. Não busco referências alheias nem me sei reger por códigos de outros e menos me revejo no que outros antes de mim disseram ou deixaram dito ou escrito. Tudo o que sinto vem de mim e me faz sentido a mim e não procuro convencer ninguém senão a mim mesma. Haverá formas mais doutas e eruditas de exprimir o que se sente, mais pensadas, mais construídas de reflexão, carregadas de filosofia aprendida, repletas de rodapés de referências bibliográficas escritas por outros, chamadas de atenção doutrinárias reconhecidas e respeitadas...Havê-las-á quando for esse o objetivo, o de reforçar o que se sente com o que outros disseram e sentiram e exprimiram e para quê e porquê? Porque se é feito disso, dessas referências alheias e pensadas por outros, um dia, ditas por outros, sentidas por outros mas não por nós. Eu sou eu, outros serão outros, cada um é o que é e sabe de si. Não explico ao outros o que devem ser, o que poderiam ser ou o que deixam de ser mas apenas o que sou e como sinto e por isso escrevo. Não pretendo ir nem um milimetro mais além daquilo que sou capaz de sentir e se mais alguém, além de mim, sente como eu, é pura coincidência, nunca consequência de uma pretensão. Deus deu-me apenas um e só um território. A caneta que encontrei serve para nele me escrever. Outras coisas serão "nomes de outros" e terão, por isso mesmo e como não podia deixar de ser "outros nomes".

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013


Estou a pensar que do capital teconologico, do financeiro e do humano, este ultimo é o unico que se auto-reproduz. Po-lo a render supera em larga escala qualquer investimento que se faça no tecnologico ou no financeiro. Invista no capital humano! Invista em si e nos potenciais tesouros humanos que o rodeiam! É como ganhar o Euromilhões!!!!!

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013


Pego no livro de Daniel Cohn-Bendit e Guy Verhofstadt sobre a Europa. Advogam uma revolução post-nacional. Primeira página? O de sempre. "Estamos a ser iltrapassados por..." Mau humor. Começamos mal. Continuo. "A Europa é um Continente de cabelos grisalhos..." E?, pergunto-me. Qual o mal? Somos um peso? Somos um desperdício? Somos emplastros? A verdadeira revolução poderia vir destes cabelos grisalhos cheios de experiência, cheios de vida e ainda cheios de energia. Porque se faz este raciocinio tão basico? Eu sou grisalha e vejo que tenho tanta ou mais energia, curiosidade, capacidade inovadora e de adaptação que os milhões de jovens que andam pelo mundo. Não somos um peso, não! Somos o capital humano mais qualificado que a Historia da Humanidade jamais produziu. No dia em que nos fartarmos de ser vistos como chumbo num mundo volatil, efímero e transitorio. Pego no "Riem ne s'oppose à la vie", da Delphine de Vigan. Um romance sobre a mãe. Muito mais construtivo e enriquecedor.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013


Um dia ainda hei-de escrever a sério sobre os peitilhos enervantes, camisolas de lã picantes, os collants escorregadiços, as botas de chumbo, as gabardines de oleado, as saias de flanela grossa, os passe-montanha da mesma lã picante, as pastas de carneira, os pães com manteiga acumulados no fundo das mesmas, o papel encerado, estrela do ano, que forrava cadernos e livros, a inestimável pedra-pomes, complemento inseparável da caneta de tinta permanente, o cheiro do leite quente no tupperware...meu Deus, que enjôo...os papeis dourados e prateados das estrelas de Natal...e tantos outros postais partilhados com tantas pessoas que, por terem vivido, sentem o mesmo que eu. Estamos juntos nesse olhar sobre um passado comum e isso é alegria no estado puro!

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013


Segunda-feira, 7 da manhã, abro o Outlook e a minha semana parece o 27 numa hora de ponta, atafulhada e a rebentar pelas costuras, reuniões coladinhas umas às outras, documentos e afazeres variados de pezinhos no ar ã tentar chegar ao papel de saída, uma fila de tarefas malhumoradas à espera - vê-se...em vão - por entrar na programação...e os telefonemas...porque é que eu pus alertas e avisos naquelas músicas embirrentas??!!!, olho e apetece-me fugir e penso que houve uma altura, quando era pequena, em que cheguei a acreditar que era possível fazer um jeito ao nariz e...magia...aparecia tudo feito! É isso mesmo. Eu devia era ser a Samantha, dar três jeitos ao nariz e pôr tudo a mexer-se à minha frente e a fazer o que é preciso fazer. Como o 38 quando arranca do Calvário, na "bisga"! Oh yeaaaaahhh!!!! A nice week for all of you!!"

Hoje sei como a vida são esses postais ilustrados que vamos colocando com amor na estante da nossa memória. Envelhecer é isso mesmo: possuir uma já considerável coleção de momentos, coisas, vozes, cheiros e imagens que entretêm o nosso olhar sobre o passado e cosem uns aos outros os retalhos da nossa memória. E é curioso. Porque são esses passeios tranquilos pelas paisagens de outrora que adoçam o meu olhar sobre o presente e no entanto é a doçura com que hoje percorro esses momentos que fazem deles as referências do meu presente. Parece difícil de entender mas no fundo não o é tanto assim. Tenho nas mãos uma fotografia minha dos tempos da quarta classe junto da Maria João Castelo Branco, ambas vestidas com o então tão desgradável e irritante peitilho cuja gola redonda de piqué branco espreita, no pescoço, pelo decote da camisola escura e grossa de lã virgem. Alguém usava esses peitilhos? Quem os experimentou sabe tão bem quanto eu o incómodo que era usá-los, sobretudo porque, ao não terem mangas, punham em permanente contacto com a pele as mangas dessas camisolas de lã feitas em casa que picavam até aos nervos. Hoje, a João e eu recordamos esse martírio típico da austeridade a que os nossos pais nos habituaram, essa certeza inabalável e incorruptivel de um estilo de vida sobrio e aproveitado, que outro não havia nem era dado que houvesse e isso hoje comove-nos e faz-nos sentir umas previlegiadas por termos tido a ocasião de ser guiadas por valores e princípios que vigoravam à margem das modas, dos caprichos, dos ventos. São esses os postais que forram o meu íntimo, é neles que assentam hoje as minhas convicções. E são estas convicções de hoje, feitas do passado que me permitem olhar para o passado, para esse peitilho irrequieto e enervante e sorrir. Embora, convenhamos, que o peitilho continue a ser, para todos os efeitos, o vestuário mais irritante que alguém jamais inventou!

domingo, 20 de janeiro de 2013


Foi no dia em que fui ao Centro de Desenvolvimento Comunitário da Ameixoaira da Santa Casa da Misericordia de Lisboa que me publicaram este artigo no Diário Económico. Fui ouvir e dar apoio aos empreendedores do bairro da Ameixoeira. Quando o escrevi, senti que ía ser um artigo fora do baralho. Porque, a propósito da Europa, só se ouve falar no seu dia-à-dia, contingente, cingido a resolver o imediato, jogos de cintura a curto prazo, sem alcance e fugazes. Falei de valores e arranquei esta necessidade de falar neles olhando para trás, para o momento em que tudo começou. Nessa altura, a guerra era motivo suficiente para apostar na paz. Hoje, a crise é motivo mais do que suficiente para falarmos no valor da Solidariedade, no objetivo da Solidariedade. Mas emperrámos na crise. Que teria sido da Europa se tivéssemos emperrado na guerra? É a Solidariedade que tem que ser construída cada dia, a cada hora, como o foi a paz, em 1950. Na altura tínhamos Políticos marcados pela guerra que acreditavam na Paz. Hoje temos políticos que vivem ao abrigo da crise, são indiferentes ao horror que é a miséria, o desemprego, a fome e a solidão. Somos nós todos que temos que dar uma lição valente a essa casta política desumana e egocêntrica e praticarmos a solidariedade de baixo para cima até conseguirmos varrer a classe políitica instalada. A solidariedade começa nas Ameixoeiras onde podemos dar esperança às pessoas e fazer com que sintam que não estão sós e que tudo o que as Instituições têm é para criar as condições para que ninguém passe mais provações. É um dever moral. A Solidariedade. Um valor para o século XXI. Para a Europa que eu quero construir. Depois de ouvir os aprendizes de empresários da Ameixoeira fez-me sentido o que escrevi. É isso mesmo que é preciso: lutar por valores. Afinal, nao é tão vago como pensava.

UE: valores que valem tanto a pena


Esta é uma reflexão que se impõe: Que tem a União Europeia de especial que continua a ser vista, pelos que lhe batem à porta, e apesar da crise económica, política e de valores, profunda que atravessa, como a terra prometida?
Uma União que não está disponível para dotar-se dos recursos necessários ao desenvolvimento das suas ambições? Uma União que avança aos solavancos, pressionada pelos mercados, por outros países, por outros blocos, que reage, mais do que age? Uma União sem bandeiras, sem uma missão clara, cada vez mais afastada da sua cidadania?
Irá ser possível a esta União minimalista ser solidária com os futuros membros e oferecer-lhes o enquadramento que precisam para construir a paz e prosperidade que jamais tiveram?
Como encaixar estas peças todas de forma a que possamos ter uma imagem global e coerente do que estamos a construir entre todos? Olhando para os debates em Bruxelas, o que vemos é uma querela mesquinha em torno daquilo que não queremos ser. O processo de integração passou a ser, todo ele, um custo, um fardo, um não ser. E no entanto...há quem queira entrar. Porquê?
A explicação está no que não se debate em Bruxelas, no que Bruxelas deixou pelo caminho: os valores. Aqueles que presidiram à constituição das primeiras Comunidades e que têm sido as alavancas que, nos momentos-chave, fizeram avançar o processo de integração: a paz, a liberdade, a segurança, o bem-estar, a prosperidade, a coesão, a solidariedade, a justiça, a igualdade, entre outros.
Enquanto a União Europeia for vista pelos que dela formamos parte, como um somatório de custos e não de valores e o debate, em Bruxelas, girar em torno dos valores dos custos e não sobre os custos dos valores, a União só faz verdadeiramente sentido para aqueles que sabem que os valores que representa lhes são vitais. Para esses países, pertencer à União vale qualquer custo.
Chegados aqui, é pois saudável recordar que em 1951, aquando da constituição da CECA, o valor da paz primou sobre o custo da sua realização. O bem-estar animou ingleses, gregos, portugueses, espanhóis e outros a aderir. A solidariedade foi o que justificou o alargamento histórico a leste. E hoje? Hoje olhamos para o projeto mais transcendente da História da Europa como um custo acrescentado.
Enquanto à porta da nossa consciência bate urgentemente a necessidade de recentramos a construção europeia na sua verdadeira razão de ser: os valores. É isso o que quem entra, espera. Foi por isso que a União recebeu, justamente, o Prémio Nobel. Pelo valor inestimável que é a paz. Valeu a pena!
Maria do Carmo Marques Pinto, Relatora para os Assuntos Europeus

Em memória da tia Maria Emília Raimundo, prima, tia e amiga.


"Entrega-te a Jesus Cristo e ele transformar-te-á!". Hoje dissémos adeus à tia Maria Emília Raimundo. Mais um elo da cadeia da nossa vida terrena que se desfaz e que se liga à cadeia da vida que começa com este enorme mistério que é a morte. Fomos, todos aqueles que com ela possuíamos esse elo vital, interpelados a deitar um olhar para trás e a recordar esses momentos em que convivemos com ela, imagens, conversas, a voz, episódios, épocas extensas da nossa infância, adolescência, idade adulta e até há bem pouco tempo e com ela surgem outras tantas que, entrelaçadas, formam o puzzle da vida de cada um de nós. É um olhar tingido de tristeza, sim, não a veremos mais e um sentimento de uma maior solidão, é verdade, somos e seremos imparávelmente cada vez menos a partilhar a vida cá neste mundo. Mas há também algo de sublime e trsnscendente, neste encontro com a morte, porque se trata de um momento único e o último que protagonizaremos como seres humanos.
Confrontados com este momento, tratando-se de alguém que referenciou a nossa vida, a dor é grande. Ninguém lhe escapa, a esta dor. Porém..."entrega a Cristo a dor e ele transformá-la-á em alegria". Confia, acredita, tem fé. É entregando-nos de corpo e alma, ocupando todos os espaços, momentos e interstícios em que a dor se infiltra, que a conseguiremos transformar em alegria. No final do túnel, no final dessa viagem vertical ao fundo da dor, surgirá o momento em que nada mais há a percorrer dentro de nós. Para os que acreditamos essa viagem chama-se Jesus. Para os que não acreditam na capacidade de transformação desse amor espiritual, existe ainda assim a esperança de que qualquer dor é ultrapassavel quando entramos nela com a vontade de a transformar num trampolim para a serena aceitação da nossa condição humana fugaz e transitória. Por Cristo, com Cristo e em Cristo, ou não, a nossa entrega humilde mas corajosa e incondicional a tudo o que vivemos, especialmente aos momentos de maior dor, é uma condição indispensável para descobrir à vida o que melhor tem para nos dar. Esperança e alegria profundas num dia triste e pendurado de uma época coletiva baça e deslavada. Adeus tia Maria Emília. Dê um abraço aos meus pais e a tantos outros que, como amigos seus que foram e são, estavam à sua espera para a acolher nessa sua nova vida! :-)))

domingo, 13 de janeiro de 2013


Chamou-me a atenção o meu querido amigo Zé Vasco Pimentel, amigo dessa infância que nos cai em cima quando, por distração, abrimos o primeiro armário do nosso quarto das memórias, que o tempo está guardado nas coisas. É uma grande verdade, Para nos apropriarmos dele, basta olhar para um objeto, agarrar um pensamento e obrigá-lo a descascar-se como se de uma Baboushka se tratasse, parando, quando mais nos apetece, na estação de uma das pequenas aldeias da nossa memória para passearmos pelos momentos que o nosso estado de espirito, caprichoso, escolheu, nessa tarde. Eu habito, nesta casa, que agora é minha, em cada um dos objetos que me envoltam, desde que nasci. Desde que me lembro e me consigo pensar que eles habitam comigo. Embora nem todos me pertençam, pertencem à minha memória, ao meu tempo que neles também já existe. Não tenho apego às casas porque aprendi a mudar-me com a memória e a colocá-la pelas casas por onde vou passando, nos objetos, nas rotinas, nos percursos, nos gestos, nos ambientes recriados. Onde estou, sou, e comigo, a minha memória. Momentos felizes, os de desfolhar o tempo guardado. Nas coisas e em nós.

sábado, 12 de janeiro de 2013


The Köln Concert. Memórias, recordações, saudades dos meus pais que cobram vida, nesta sala ainda cheia de momentos em que eles, e não eu, eram os protagonistas, essa voz que me oiço em percursos que não eram os meus mas agora me pertencem, cenas já vividas, mas de fora, em que agora me encontro na primeira pessoa, objetos, hábitos e rotinas que me pedem a paciência, o carinho e o cuidado a que estavam habituados e que tento adoptar, são os mesmos mas tão diferentes na minha maneira de ser, aprendo a conjugar tudo o que me rodeia e foi a vida deles, na primeira pessoa, é a minha vez de me sentar à cabeceira da mesa grande, a não deixar o fogo esmorecer na lareira, a dar corda ao relógio para que as noites adormeçam com aquelas certezas serenas de sempre, é assim que a história continua pelas vidas fora, e no entanto, há momentos em que a linha que separa o presente do desejo de voltar atrás é tão fina, tão delicada, tão ténue que...Acaba o piano de Keith Jarrett, anoiteceu, vou abrir a luz da entrada, do jardim, fazer a ronda dos afazeres, abrir camas, tirar a loiça da máquina, pôr a mesa, preparar o jantar, rotinas herdadas de uma casa, de uma vida declinada com eles. Agora sem eles, na primeira pessoa. Mas rodeada deles. Olha...acabou o gas da bilha. O que diria a minha mãe?

Hoje, ao fazer as camas de lavado, em Sintra, num dos cobertores antigos, que eram das camas dos meus irmãos e agora habitam nas dos meus filhos, detetei aquela irredutível mancha de tinta azul permanente, filha da desobediência à regra de que não se pintava na cama com canetas, uma de muitas e vieram-me à cabeça algumas, a mais ingénua de todas a que me levou a mim e ao meu irmão João a colocar bem no centro do quarto das brincadeiras, a camilha que habitava sempre num canto, onde jantávamos, às vezes, de pequenos, para esconder um miserável buraco enegrecido no tapete, causado pelo cruzamento sem tino de elementos de uma caixa de experiências químicas, um líquido negro e malcheiroso que se nos transbordou - como era previsível - de um magrinho tubo de ensaio e cavalgou animadamente pelo tapete fora até comê-lo, a aflição, "e agora? Limpa depressa, ai a mãe! E agora?" O agora foi resolvido com a colocação da camilha em cima do buraco, imaginando que a minha mãe de nada se aperceberia, que ingenuidade, a mesa ali, não fazia sentido algum para um adulto, e assim foi e foi assim que ao entrar no quarto, a minha mãe, como não podia deixar de ser, pegou na mesa para pô-la no lugar e ao fazê-lo deu de caras com a brincadeira que deixara de o ser para passar a ser uma simples asneira num tapete inutilizado, gravado na galeria dos feitos sem glória da nossa infância. Viro a página, ele há tantas de páginas destas na memória e nas manchas dos cobertores, tapetes, objetos e histórias que há gerações que convivem nesta casa, que não há tempo suficiente para escrevê-las a todas.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013


Lisboa, carrancuda e de sobrolho carregado. Se calhar andou na boa-vai-ela, esta noite e com uma piela, apanhou uma chuvada que a deixou constipada! Pobre Lisboa...há dias em que até a nossa Lisboa prefere ficar em casa.



sexta-feira, 4 de janeiro de 2013


Estou a pensar que a esta hora estão os pais, irmãos, avós, tios, primos e amigos do João Clode reunidos para lhe dizerem adeus aqui na terra. Num dia tão luminoso como o de hoje, é dificil que haja luz nos corações nesse terrível momento da separação. Não está escrita a imensa dôr que todos sentem nem é possivel evitar a sensação de estar a viver um pesadelo. E no entanto. No entanto, como ontem disse o padre, comovido mas convicto, o João partiu porque Deus o considerou "maior" para aceder a vida eterna. Só a fé na Bondade de Deus permite aceitar que se "arranque" à vida e ao nosso "abraço" de mãe e pai e à "camaradagem" de irmão e amigo, um filho, um irmão e um amigo. Só a fé permite aceitar sem reservas que o vazio do João seja preenchido por um "novo anjo" que vela por todos aqueles que em vida o estimaram. É só elevando o espirito a Deus que os silêncios e vazios e saudades e dor sejam substituídos por uma alegria genuina pela nova presença "mística" do João. Exige fé. Muita fé. Muita fé mesmo! Não posso ir ao enterro. Mas partilho com todos a vontade de ter mais fé. E de pensar que a morte do João é um momento muito especial para renovar a fé ou, para os que a não teêm, abrir-se a ela. O sol brilha. Talvez seja já um primeiro sinal. Poderia chover num dia em que nasce um novo anjo?

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013


A vida ensina-nos que também são os filhos que nos ensinam a crescer com eles, à medida que vão crescendo, e crescendo, desafiando a vida, levando-nos, com eles, até às crista de ondas inimagináveis e a superá-las e a vencer os medos e as angústias que só eles nos fazem sentir. Pela mão aventureira, indisciplinada, por vezes teimosa, outras cheia de doçura e carinho, dos meus filhos, tenho ido provando sabores e cores da vida que sem eles jamais teria podido descobrir, ficariam para sempre por descobrir. Parte de mim está feita deles e por eles foi moldada com o seu próprio génio, forma de ser e estar e querer, mistérios de mim própria que só por eles sei que existem em mim. Espaços que se vão moldando à medida que vão caminhando e que me vão ensinando, como caminhar.

Momentos de dôr


Coragem também é não tê-la quando a dôr é tal que evitá-la não é mais do que o medo a sucumbir-lhe. E dôr há que os olhos devem encarar de frente, o coração aceitar com humildade e a alma assumir como inevitável. Nem tudo na vida tem razão de ser, nem tudo o que se nos oferece viver faz sentido e algumas vezes não há objetivo a cumprir. E desabamos porque simplesmente não há à mão força para resistir. Corajoso é o que aceita essa aparente derrota e se deixa ir ao fundo porque só quem bate no fundo sente o chão que o faz voltar à superficie.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013


A primeira vista formulada de 2013: a sempre serena, doce e luminosa paisagem da Serra de Sintra, da janela da minha sala. Um luxo imutavel, neste ano de 2013, em que só nos sabem falar de provações, reduções, limitações, perdas. Há luxos, na nossa vida, que jamais perderão valor, jamais serão tributados ou onerados. Saibamos desfazer-nos daquilo cujo valor pode ser reduzido e concentrarmo-nos naquilo que ganha com a nossa atenção. Esta minha paisagem quotidiana é um luxo. Podem-ma tirar, claro. Posso perdê-la, claro. Mas fico sempre com o meu olhar, que saberá fazer de qualquer paisagem, um luxo. Olhemos, com atenção. Para a primrira de 2013. Será a nossa bitola, ao longo do ano. Estou feliz com a minha. Porque até está cantada com milhões de passarocos que aqui não consigo reproduzir. 2013, um luxo! Venha ele! A todos, um abraço.



Extraordinário o povo que se reúne no dia 1 para exaltar o que é genuinamente seu, ao longo dos anos, consistentemente, orgulhosamente, fielmente, sendo capaz de ir ao encontro de milhões de outros que não exclusivamente eles, os proprietários. Fantástico! Sendo deles, é universal! Oxalá pudessemos fazer algo semelhante com tantas coisas bonitas e belas que temos! Tudo é bonito neste Concerto! A música, os fatos, as flores, o décor! Começar o ano com tanta Beleza e Harmonia é uma boa maneira de começar o ano! A juntar ao que temos. Soma e segue!

Seguidores, fãs, detratores, amigos, interessados