Não sei o que os meus amigos
facebookianos, companheiros de rota existencial, pensam ácerca da importância
que os lugares têm na nossa maneira de sentir as coisas e até de dar forma a
uma identidade determinada, que coabita, junto com outras, dentro de nós. O
nosso Bilhete de Identidade é algo bem mais complexo que um simples cartão de
identificação que nos arruma numa determinada circunstância pessoal. Vimos dos que nos deram
origem, estamos vinculados ao lugar onde nascemos e pertencemos onde vivemos
habitualmente. Mas...e com este "mas" é que começa a verdadeira
aventura. Porque com os pés assentes nesse substrato existencial, os percursos
que vamos abrindo ao longo da vida levam-nos a acrescentar, a essa identidade,
vivências "geográficas" que podem ir ao ponto de criar novas
identidades de nós próprios, que, como disse, passam a coabitar, em harmonia,
ou não - depende muito de cada um - dentro de nós. Há quem as carregue dentro
de si toda a vida, como se fossem troféus, postais, que se colocam na nossa estante
das recordações. Há quem as veja mais como um casacão pendurado no armário que
vestimos quando nos temos que deslocar a essa identidade. Seja como for (cada
um que descubra a sua própria maneira de viver as coisas), a verdade é que
quando olhamos para essas vivências muito marcadas que nos vão acrescentando
campos ao nosso BI de partida, tomamos consciência de que somos vários e muitos
ao mesmo tempo e que isso não nos surpreenda nem nos inquiete. Sou e somos. Um
e vários. Um determinado alguém cujo espetro de luz se vai ampliando ao longo
da vida e que brilha conforme o dia se anuncia dentro de cada um de nós, nessa
ou naquela amplitude de onda em que nos fomos acrescentando, hoje nesta, amanhã
naquela outra, com as cores da alegria, nas sombras da tristeza, a intensidade
do entusiasmo, a palidez do desânimo, com as tonalidades de Lisboa, Bruxelas,
Barcelona, Sofia, Bruges ou Sintra, onde estamos, por onde passámos e de onde
recolhemos e nos espalhámos, atomos de aqui e de ali, de uns e de outros, que se
agregam dentro de nós para dar corpo, forma e sentido ao enorme caleidoscópio
que somos. É assim, meus amigos, que eu vivo várias vidas na vida só que me foi
dada a viver e me declino por todos os farrapos que vou escrevendo sempre que
tenho tempo e me apetece. Hoje estou em Barcelona. Outro registo. Será porque
sou um caleidoscópio. Por isso o escrevo. Não vá esquecer-me. Com chuva, com
sol, a cores, a preto e branco, num ou noutro de cada um, tenham um bom dia. E
brilhem!
E por isso vou a correr escrever. Para que as ideias escorram depressa para o papel e dêem espaço às novas que se apressam a tomar forma. Escrever é forrar as paredes interiores de ideias arrumadas.
domingo, 27 de janeiro de 2013
OUTROS NOMES DE OUTROS
Cada um sabe de si. Porque gosta disto, prefere aquilo, se
afasta do outro, se centra aqui. Porque corre, porque pinta, escreve, canta,
lê, desenha, constroi e conversa. O que o faz rir, o comove, o horroriza, o
abala, o convence, o implica, o arrasta ou influencia. E como interioriza e
processa tudo o que recolhe e vibra, brilha, irradia. E porque o faz. E como.
Eu sei porque o faço, como o faço, o porquê de o fazer e apenas deixo o
quando ao aleatório das circunstâncias. E nesse processo intervenho só eu e o
que sinto, e o que sinto é o que escrevo, porque escrevo para perceber o que
sinto. Haverá em mim átomos de outros e partículas de tudo o que me rodeia e me
chega porque não estou só nem as minhas fronteiras são opacas ou impermeáveis,
mas guio-me essencialmente pelos meus códigos e pelas leis do meu Universo mais
próximo, onde os campos de energia se materializam no que sou e no que sou
apenas. Não busco referências alheias nem me sei reger por códigos de outros e
menos me revejo no que outros antes de mim disseram ou deixaram dito ou
escrito. Tudo o que sinto vem de mim e me faz sentido a mim e não procuro
convencer ninguém senão a mim mesma. Haverá formas mais doutas e eruditas de
exprimir o que se sente, mais pensadas, mais construídas de reflexão, carregadas
de filosofia aprendida, repletas de rodapés de referências bibliográficas
escritas por outros, chamadas de atenção doutrinárias reconhecidas e
respeitadas...Havê-las-á quando for esse o objetivo, o de reforçar o que se
sente com o que outros disseram e sentiram e exprimiram e para quê e porquê?
Porque se é feito disso, dessas referências alheias e pensadas por outros, um
dia, ditas por outros, sentidas por outros mas não por nós. Eu sou eu, outros
serão outros, cada um é o que é e sabe de si. Não explico ao outros o que devem
ser, o que poderiam ser ou o que deixam de ser mas apenas o que sou e como
sinto e por isso escrevo. Não pretendo ir nem um milimetro mais além daquilo
que sou capaz de sentir e se mais alguém, além de mim, sente como eu, é pura
coincidência, nunca consequência de uma pretensão. Deus deu-me apenas um e só
um território. A caneta que encontrei serve para nele me escrever. Outras
coisas serão "nomes de outros" e terão, por isso mesmo e como não
podia deixar de ser "outros nomes".
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
Estou a pensar que
do capital teconologico, do financeiro e do humano, este ultimo é o unico que
se auto-reproduz. Po-lo a render supera em larga escala qualquer investimento
que se faça no tecnologico ou no financeiro. Invista no capital humano! Invista
em si e nos potenciais tesouros humanos que o rodeiam! É como ganhar o
Euromilhões!!!!!
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
Pego no livro de
Daniel Cohn-Bendit e Guy Verhofstadt sobre a Europa. Advogam uma revolução
post-nacional. Primeira página? O de sempre. "Estamos a ser iltrapassados
por..." Mau humor. Começamos mal. Continuo. "A Europa é um Continente
de cabelos grisalhos..." E?, pergunto-me. Qual o mal? Somos um peso? Somos
um desperdício? Somos emplastros? A verdadeira revolução poderia vir destes
cabelos grisalhos cheios de experiência, cheios de vida e ainda cheios de
energia. Porque se faz este raciocinio tão basico? Eu sou grisalha e vejo que
tenho tanta ou mais energia, curiosidade, capacidade inovadora e de adaptação
que os milhões de jovens que andam pelo mundo. Não somos um peso, não! Somos o
capital humano mais qualificado que a Historia da Humanidade jamais produziu.
No dia em que nos fartarmos de ser vistos como chumbo num mundo volatil,
efímero e transitorio. Pego no "Riem ne s'oppose à la vie", da
Delphine de Vigan. Um romance sobre a mãe. Muito mais construtivo e enriquecedor.
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
Um dia ainda hei-de
escrever a sério sobre os peitilhos enervantes, camisolas de lã picantes, os
collants escorregadiços, as botas de chumbo, as gabardines de oleado, as saias
de flanela grossa, os passe-montanha da mesma lã picante, as pastas de
carneira, os pães com manteiga acumulados no fundo das mesmas, o papel
encerado, estrela do ano, que forrava cadernos e livros, a inestimável
pedra-pomes, complemento inseparável da caneta de tinta permanente, o cheiro do
leite quente no tupperware...meu Deus, que enjôo...os papeis dourados e
prateados das estrelas de Natal...e tantos outros postais partilhados com
tantas pessoas que, por terem vivido, sentem o mesmo que eu. Estamos juntos
nesse olhar sobre um passado comum e isso é alegria no estado puro!
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
Segunda-feira, 7 da
manhã, abro o Outlook e a minha semana parece o 27 numa hora de ponta,
atafulhada e a rebentar pelas costuras, reuniões coladinhas umas às outras,
documentos e afazeres variados de pezinhos no ar ã tentar chegar ao papel de
saída, uma fila de tarefas malhumoradas à espera - vê-se...em vão - por entrar
na programação...e os telefonemas...porque é que eu pus alertas e avisos
naquelas músicas embirrentas??!!!, olho e apetece-me fugir e penso que houve
uma altura, quando era pequena, em que cheguei a acreditar que era possível
fazer um jeito ao nariz e...magia...aparecia tudo feito! É isso mesmo. Eu devia
era ser a Samantha, dar três jeitos ao nariz e pôr tudo a mexer-se à minha
frente e a fazer o que é preciso fazer. Como o 38 quando arranca do Calvário,
na "bisga"! Oh yeaaaaahhh!!!! A nice week for all of you!!"
Hoje sei como a
vida são esses postais ilustrados que vamos colocando com amor na estante da
nossa memória. Envelhecer é isso mesmo: possuir uma já considerável coleção de
momentos, coisas, vozes, cheiros e imagens que entretêm o nosso olhar sobre o
passado e cosem uns aos outros os retalhos da nossa memória. E é curioso.
Porque são esses passeios tranquilos pelas paisagens de outrora que adoçam o
meu olhar sobre o presente e no entanto é a doçura com que hoje percorro esses
momentos que fazem deles as referências do meu presente. Parece difícil de
entender mas no fundo não o é tanto assim. Tenho nas mãos uma fotografia minha
dos tempos da quarta classe junto da Maria João Castelo Branco, ambas vestidas
com o então tão desgradável e irritante peitilho cuja gola redonda de piqué
branco espreita, no pescoço, pelo decote da camisola escura e grossa de lã
virgem. Alguém usava esses peitilhos? Quem os experimentou sabe tão bem quanto
eu o incómodo que era usá-los, sobretudo porque, ao não terem mangas, punham em
permanente contacto com a pele as mangas dessas camisolas de lã feitas em casa
que picavam até aos nervos. Hoje, a João e eu recordamos esse martírio típico
da austeridade a que os nossos pais nos habituaram, essa certeza inabalável e
incorruptivel de um estilo de vida sobrio e aproveitado, que outro não havia
nem era dado que houvesse e isso hoje comove-nos e faz-nos sentir umas
previlegiadas por termos tido a ocasião de ser guiadas por valores e princípios
que vigoravam à margem das modas, dos caprichos, dos ventos. São esses os
postais que forram o meu íntimo, é neles que assentam hoje as minhas
convicções. E são estas convicções de hoje, feitas do passado que me permitem
olhar para o passado, para esse peitilho irrequieto e enervante e sorrir.
Embora, convenhamos, que o peitilho continue a ser, para todos os efeitos, o
vestuário mais irritante que alguém jamais inventou!
domingo, 20 de janeiro de 2013
Foi no dia em que
fui ao Centro de Desenvolvimento Comunitário da Ameixoaira da Santa Casa da
Misericordia de Lisboa que me publicaram este artigo no Diário Económico. Fui
ouvir e dar apoio aos empreendedores do bairro da Ameixoeira. Quando o escrevi,
senti que ía ser um artigo fora do baralho. Porque, a propósito da Europa, só
se ouve falar no seu dia-à-dia, contingente, cingido a resolver o imediato,
jogos de cintura a curto prazo, sem alcance e fugazes. Falei de valores e
arranquei esta necessidade de falar neles olhando para trás, para o momento em
que tudo começou. Nessa altura, a guerra era motivo suficiente para apostar na
paz. Hoje, a crise é motivo mais do que suficiente para falarmos no valor da
Solidariedade, no objetivo da Solidariedade. Mas emperrámos na crise. Que teria
sido da Europa se tivéssemos emperrado na guerra? É a Solidariedade que tem que
ser construída cada dia, a cada hora, como o foi a paz, em 1950. Na altura
tínhamos Políticos marcados pela guerra que acreditavam na Paz. Hoje temos
políticos que vivem ao abrigo da crise, são indiferentes ao horror que é a
miséria, o desemprego, a fome e a solidão. Somos nós todos que temos que dar
uma lição valente a essa casta política desumana e egocêntrica e praticarmos a
solidariedade de baixo para cima até conseguirmos varrer a classe políitica
instalada. A solidariedade começa nas Ameixoeiras onde podemos dar esperança às
pessoas e fazer com que sintam que não estão sós e que tudo o que as
Instituições têm é para criar as condições para que ninguém passe mais
provações. É um dever moral. A Solidariedade. Um valor para o século XXI. Para
a Europa que eu quero construir. Depois de ouvir os aprendizes de empresários
da Ameixoeira fez-me sentido o que escrevi. É isso mesmo que é preciso: lutar
por valores. Afinal, nao é tão vago como pensava.
UE: valores que valem tanto a pena
Esta é uma reflexão que se impõe: Que tem a União
Europeia de especial que continua a ser vista, pelos que lhe batem à porta, e
apesar da crise económica, política e de valores, profunda que atravessa, como
a terra prometida?
Uma União que não está disponível para dotar-se dos recursos
necessários ao desenvolvimento das suas ambições? Uma União que avança aos
solavancos, pressionada pelos mercados, por outros países, por outros blocos,
que reage, mais do que age? Uma União sem bandeiras, sem uma missão clara, cada
vez mais afastada da sua cidadania?
Irá ser
possível a esta União minimalista ser solidária com os futuros membros e
oferecer-lhes o enquadramento que precisam para construir a paz e prosperidade
que jamais tiveram?
Como encaixar estas peças todas de forma a que possamos ter uma
imagem global e coerente do que estamos a construir entre todos? Olhando para
os debates em Bruxelas, o que vemos é uma querela mesquinha em torno daquilo
que não queremos ser. O processo de integração passou a ser, todo ele, um
custo, um fardo, um não ser. E no entanto...há quem queira entrar. Porquê?
A
explicação está no que não se debate em Bruxelas, no que Bruxelas deixou pelo
caminho: os valores. Aqueles que presidiram à constituição das primeiras
Comunidades e que têm sido as alavancas que, nos momentos-chave, fizeram
avançar o processo de integração: a paz, a liberdade, a segurança, o bem-estar,
a prosperidade, a coesão, a solidariedade, a justiça, a igualdade, entre
outros.
Enquanto
a União Europeia for vista pelos que dela formamos parte, como um somatório de
custos e não de valores e o debate, em Bruxelas, girar em torno dos valores dos
custos e não sobre os custos dos valores, a União só faz verdadeiramente
sentido para aqueles que sabem que os valores que representa lhes são vitais.
Para esses países, pertencer à União vale qualquer custo.
Chegados
aqui, é pois saudável recordar que em 1951, aquando da constituição da CECA, o
valor da paz primou sobre o custo da sua realização. O bem-estar animou
ingleses, gregos, portugueses, espanhóis e outros a aderir. A solidariedade foi
o que justificou o alargamento histórico a leste. E hoje? Hoje olhamos para o
projeto mais transcendente da História da Europa como um custo acrescentado.
Enquanto
à porta da nossa consciência bate urgentemente a necessidade de recentramos a
construção europeia na sua verdadeira razão de ser: os valores. É isso o que
quem entra, espera. Foi por isso que a União recebeu, justamente, o Prémio
Nobel. Pelo valor inestimável que é a paz. Valeu a pena!
Maria do
Carmo Marques Pinto, Relatora para os Assuntos Europeus
Em memória da tia Maria Emília Raimundo, prima, tia e amiga.
"Entrega-te a
Jesus Cristo e ele transformar-te-á!". Hoje dissémos adeus à tia Maria
Emília Raimundo. Mais um elo da cadeia da nossa vida terrena que se desfaz e
que se liga à cadeia da vida que começa com este enorme mistério que é a morte.
Fomos, todos aqueles que com ela possuíamos esse elo vital, interpelados a
deitar um olhar para trás e a recordar esses momentos em que convivemos com
ela, imagens, conversas, a voz, episódios, épocas extensas da nossa infância,
adolescência, idade adulta e até há bem pouco tempo e com ela surgem outras
tantas que, entrelaçadas, formam o puzzle da vida de cada um de nós. É um olhar
tingido de tristeza, sim, não a veremos mais e um sentimento de uma maior solidão,
é verdade, somos e seremos imparávelmente cada vez menos a partilhar a vida cá
neste mundo. Mas há também algo de sublime e trsnscendente, neste encontro com
a morte, porque se trata de um momento único e o último que protagonizaremos
como seres humanos.
Confrontados com
este momento, tratando-se de alguém que referenciou a nossa vida, a dor é
grande. Ninguém lhe escapa, a esta dor. Porém..."entrega a Cristo a dor e
ele transformá-la-á em alegria". Confia, acredita, tem fé. É
entregando-nos de corpo e alma, ocupando todos os espaços, momentos e
interstícios em que a dor se infiltra, que a conseguiremos transformar em
alegria. No final do túnel, no final dessa viagem vertical ao fundo da dor,
surgirá o momento em que nada mais há a percorrer dentro de nós. Para os que
acreditamos essa viagem chama-se Jesus. Para os que não acreditam na capacidade
de transformação desse amor espiritual, existe ainda assim a esperança de que
qualquer dor é ultrapassavel quando entramos nela com a vontade de a
transformar num trampolim para a serena aceitação da nossa condição humana
fugaz e transitória. Por Cristo, com Cristo e em Cristo, ou não, a nossa
entrega humilde mas corajosa e incondicional a tudo o que vivemos,
especialmente aos momentos de maior dor, é uma condição indispensável para
descobrir à vida o que melhor tem para nos dar. Esperança e alegria profundas
num dia triste e pendurado de uma época coletiva baça e deslavada. Adeus tia
Maria Emília. Dê um abraço aos meus pais e a tantos outros que, como amigos
seus que foram e são, estavam à sua espera para a acolher nessa sua nova vida!
:-)))
domingo, 13 de janeiro de 2013
Chamou-me a atenção
o meu querido amigo Zé Vasco Pimentel, amigo dessa infância que nos cai em cima
quando, por distração, abrimos o primeiro armário do nosso quarto das memórias,
que o tempo está guardado nas coisas. É uma grande verdade, Para nos
apropriarmos dele, basta olhar para um objeto, agarrar um pensamento e
obrigá-lo a descascar-se como se de uma Baboushka se tratasse, parando, quando mais
nos apetece, na estação de uma das pequenas aldeias da nossa memória para
passearmos pelos momentos que o nosso estado de espirito, caprichoso, escolheu,
nessa tarde. Eu habito, nesta casa, que agora é minha, em cada um dos objetos
que me envoltam, desde que nasci. Desde que me lembro e me consigo pensar que
eles habitam comigo. Embora nem todos me pertençam, pertencem à minha memória,
ao meu tempo que neles também já existe. Não tenho apego às casas porque
aprendi a mudar-me com a memória e a colocá-la pelas casas por onde vou
passando, nos objetos, nas rotinas, nos percursos, nos gestos, nos ambientes
recriados. Onde estou, sou, e comigo, a minha memória. Momentos felizes, os de
desfolhar o tempo guardado. Nas coisas e em nós.
sábado, 12 de janeiro de 2013
The Köln Concert.
Memórias, recordações, saudades dos meus pais que cobram vida, nesta sala ainda
cheia de momentos em que eles, e não eu, eram os protagonistas, essa voz que me
oiço em percursos que não eram os meus mas agora me pertencem, cenas já
vividas, mas de fora, em que agora me encontro na primeira pessoa, objetos,
hábitos e rotinas que me pedem a paciência, o carinho e o cuidado a que estavam
habituados e que tento adoptar, são os mesmos mas tão diferentes na minha
maneira de ser, aprendo a conjugar tudo o que me rodeia e foi a vida deles, na
primeira pessoa, é a minha vez de me sentar à cabeceira da mesa grande, a não
deixar o fogo esmorecer na lareira, a dar corda ao relógio para que as noites
adormeçam com aquelas certezas serenas de sempre, é assim que a história
continua pelas vidas fora, e no entanto, há momentos em que a linha que separa
o presente do desejo de voltar atrás é tão fina, tão delicada, tão ténue
que...Acaba o piano de Keith Jarrett, anoiteceu, vou abrir a luz da entrada, do
jardim, fazer a ronda dos afazeres, abrir camas, tirar a loiça da máquina, pôr
a mesa, preparar o jantar, rotinas herdadas de uma casa, de uma vida declinada
com eles. Agora sem eles, na primeira pessoa. Mas rodeada deles. Olha...acabou
o gas da bilha. O que diria a minha mãe?
Hoje, ao fazer as
camas de lavado, em Sintra, num dos cobertores antigos, que eram das camas dos
meus irmãos e agora habitam nas dos meus filhos, detetei aquela irredutível
mancha de tinta azul permanente, filha da desobediência à regra de que não se
pintava na cama com canetas, uma de muitas e vieram-me à cabeça algumas, a mais
ingénua de todas a que me levou a mim e ao meu irmão João a colocar bem no
centro do quarto das brincadeiras, a camilha que habitava sempre num canto,
onde jantávamos, às vezes, de pequenos, para esconder um miserável buraco
enegrecido no tapete, causado pelo cruzamento sem tino de elementos de uma
caixa de experiências químicas, um líquido negro e malcheiroso que se nos
transbordou - como era previsível - de um magrinho tubo de ensaio e cavalgou
animadamente pelo tapete fora até comê-lo, a aflição, "e agora? Limpa
depressa, ai a mãe! E agora?" O agora foi resolvido com a colocação da
camilha em cima do buraco, imaginando que a minha mãe de nada se aperceberia,
que ingenuidade, a mesa ali, não fazia sentido algum para um adulto, e assim
foi e foi assim que ao entrar no quarto, a minha mãe, como não podia deixar de
ser, pegou na mesa para pô-la no lugar e ao fazê-lo deu de caras com a
brincadeira que deixara de o ser para passar a ser uma simples asneira num
tapete inutilizado, gravado na galeria dos feitos sem glória da nossa infância.
Viro a página, ele há tantas de páginas destas na memória e nas manchas dos
cobertores, tapetes, objetos e histórias que há gerações que convivem nesta
casa, que não há tempo suficiente para escrevê-las a todas.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
Estou a pensar que
a esta hora estão os pais, irmãos, avós, tios, primos e amigos do João Clode
reunidos para lhe dizerem adeus aqui na terra. Num dia tão luminoso como o de
hoje, é dificil que haja luz nos corações nesse terrível momento da separação.
Não está escrita a imensa dôr que todos sentem nem é possivel evitar a sensação
de estar a viver um pesadelo. E no entanto. No entanto, como ontem disse o
padre, comovido mas convicto, o João partiu porque Deus o considerou
"maior" para aceder a vida eterna. Só a fé na Bondade de Deus permite
aceitar que se "arranque" à vida e ao nosso "abraço" de mãe
e pai e à "camaradagem" de irmão e amigo, um filho, um irmão e um
amigo. Só a fé permite aceitar sem reservas que o vazio do João seja preenchido
por um "novo anjo" que vela por todos aqueles que em vida o
estimaram. É só elevando o espirito a Deus que os silêncios e vazios e saudades
e dor sejam substituídos por uma alegria genuina pela nova presença
"mística" do João. Exige fé. Muita fé. Muita fé mesmo! Não posso ir
ao enterro. Mas partilho com todos a vontade de ter mais fé. E de pensar que a
morte do João é um momento muito especial para renovar a fé ou, para os que a
não teêm, abrir-se a ela. O sol brilha. Talvez seja já um primeiro sinal.
Poderia chover num dia em que nasce um novo anjo?
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
A vida ensina-nos
que também são os filhos que nos ensinam a crescer com eles, à medida que vão
crescendo, e crescendo, desafiando a vida, levando-nos, com eles, até às crista
de ondas inimagináveis e a superá-las e a vencer os medos e as angústias que só
eles nos fazem sentir. Pela mão aventureira, indisciplinada, por vezes teimosa,
outras cheia de doçura e carinho, dos meus filhos, tenho ido provando sabores e
cores da vida que sem eles jamais teria podido descobrir, ficariam para sempre
por descobrir. Parte de mim está feita deles e por eles foi moldada com o seu
próprio génio, forma de ser e estar e querer, mistérios de mim própria que só
por eles sei que existem em mim. Espaços que se vão moldando à medida que vão
caminhando e que me vão ensinando, como caminhar.
Momentos de dôr
Coragem também é não tê-la quando a dôr é tal que evitá-la não é mais do que o
medo a sucumbir-lhe. E dôr há que os olhos devem encarar de frente, o coração
aceitar com humildade e a alma assumir como inevitável. Nem tudo na vida tem
razão de ser, nem tudo o que se nos oferece viver faz sentido e algumas vezes
não há objetivo a cumprir. E desabamos porque simplesmente não há à mão força
para resistir. Corajoso é o que aceita essa aparente derrota e se deixa ir ao
fundo porque só quem bate no fundo sente o chão que o faz voltar à superficie.
terça-feira, 1 de janeiro de 2013
A primeira vista
formulada de 2013: a sempre serena, doce e luminosa paisagem da Serra de
Sintra, da janela da minha sala. Um luxo imutavel, neste ano de 2013, em que só
nos sabem falar de provações, reduções, limitações, perdas. Há luxos, na nossa
vida, que jamais perderão valor, jamais serão tributados ou onerados. Saibamos
desfazer-nos daquilo cujo valor pode ser reduzido e concentrarmo-nos naquilo
que ganha com a nossa atenção. Esta minha paisagem quotidiana é um luxo.
Podem-ma tirar, claro. Posso perdê-la, claro. Mas fico sempre com o meu olhar,
que saberá fazer de qualquer paisagem, um luxo. Olhemos, com atenção. Para a
primrira de 2013. Será a nossa bitola, ao longo do ano. Estou feliz com a
minha. Porque até está cantada com milhões de passarocos que aqui não consigo
reproduzir. 2013, um luxo! Venha ele! A todos, um abraço.
Extraordinário o
povo que se reúne no dia 1 para exaltar o que é genuinamente seu, ao longo dos
anos, consistentemente, orgulhosamente, fielmente, sendo capaz de ir ao
encontro de milhões de outros que não exclusivamente eles, os proprietários.
Fantástico! Sendo deles, é universal! Oxalá pudessemos fazer algo semelhante
com tantas coisas bonitas e belas que temos! Tudo é bonito neste Concerto! A
música, os fatos, as flores, o décor! Começar o ano com tanta Beleza e Harmonia
é uma boa maneira de começar o ano! A juntar ao que temos. Soma e segue!
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