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quarta-feira, 25 de junho de 2025

Madrid é em Madrid e só em Madrid

Madrid é uma cidade que rápidamente se faz companheira. Convida-nos para as esplanadas das suas noites tórridas, ruidosas, alegres, despreocupadas, para celebrar o que se quiser, a amizade, a família, um sucesso, uma vitória, talvez a vida…gosto desta espuma luminosa e radiante que emana da vida à noite nestes cenários bem postos, agradáveis, modernos, chiques e envolventes. Gosto da luz, feérica, festiva, colorida e engalanada para celebrar. Gosto dos sabores fortes, bem temperados, atrevidos, do mar, da terra, vindos dos quatro cantos de onde vêm os que vivem por aqui. Gosto das vozes, do timbre, da melodia, da galhardia, do todos ao mesmo tempo e das gargalhadas, por cima de tudo e de todos como um manto ou mantilha de uma dessas figuras que aqui veneram. Gosto. Embarco, por uma noite, em melhor-impossível-companhia e uso todos estes ingredientes que são os que aqui se usam para celebrar, como só eles sabem, o companheirismo, a amizade, o amor, a vida. Amanhã, a viagem continua, com os pés na terra, fui mais uma, entre eles, quem se vai lembrar? É Madrid. Deixe-se estar que aí pertence e só aí faz sentido. Voltarei!

14 junho 2025

Noites de agitada poesia

Sonhei que era uma lágrima brilhante que saltou sem querer do olhar tão triste da deusa que esperou em vão a noite toda pelo seu anjo e deslizou pela rama de um feto até à fonte onde muitas outras se iam dando as mãos para formarem um riacho e correrem, montanha abaixo, até ao mar.

Sonhei depois que era o riacho, que se deixa tropeçar alegremente nas pedras pelo prazer de ouvir as suas gargalhadas de cristal e de brincar com as cores em se decompõe a luz do sol que lhe ia batendo na pele, logo pela manhãzinha e de cantar com o pássaro de bico doirado, a alegria despreocupada de ser quem é.
Sonhei, por fim, que era esse oceano vasto e inquieto, salgado das lágrimas que a terra lhe traz das noites de amor que ficaram por cumprir, que rebenta a sua dor, por vezes doce, por vezes irada nas praias de areia fina e delicada, a mãe que tudo acolhe no abraço quente do sol-por.
E deixei-me levar pelo último raio de sol até aos céus onde vivem as deusas que procuram, eternamente, o amor que lhes foi prometido, para nelas voltar a ser a lágrima que será sonhada por outro alguém, na sua noite de agitada poesia.

25 junho 2025

sexta-feira, 30 de maio de 2025

E se eu fosse esta bruma?

Esta é a delicada bruma que desliza pelos cantos e recantos da minha circunstância. Nasce nas bermas do Atlântico, a cada onda que rebenta um pouco, aos poucos e é assim, dispersas as gotas pelas suas correntes de ar inexoráveis e intemporais que, aos poucos e poucos, a bruma vai galgando, paciente e conscienciosamente as colinas, entre o arvoredo, ao longo dos trilhos, por cima dos muros, torneando casas e palácios que sobrevivem ao tempo e aos tempos, sólidos demais para se preocuparem com o assédio de ventos inóspitos e adulterados, até chegar ao cimo da colina, ao topo deste Monte onde a alma, esse sentir que se identifica e depois se confunde e no final se transfigura na realidade que nos envolve, e se veste da própria bruma, aquela que dá as mãos, abraça e beija estes verdes entrelaçados uns nos outros, os refresca com a água que transporta lá do fundo do horizonte, por desígnio do mar, que forma parte deste todo e que sem ele nem estes verdes existiriam, nem a bruma, nem a minha alma poderia algum dia ser aquilo que vejo, o que me rodeia, a realidade. Isto sim, faz-me sentido, ser, com a água, a terra, as plantas e as brisas, o Universo, o todo, aquilo que perdurará até ao final dos tempos. Esvai-se a bruma, regresso ao meu espaço, consciente de que nem sempre é a ciência que explica a realidade mas sim a vontade/ capacidade de sentir-nos parte ativa do que nos rodeia. Não me parece não ser bem vinda nesse mundo onde reina a harmonia, a paz e a sabedoria. Acho até que o que se espera de nós, o que esta realidade espera de nós é que ponhamos a nossa alma ao serviço deste Universo. Mas para isso há que ser bruma. Esta bruma.


30 maio 2025




sexta-feira, 23 de maio de 2025

Amor nas margens da vida louca

Parece banal e irrelevante face às prioridades e problemas que ocupam os seres humanos, que umas hastezinhas empertigadas e delicadas, tenham brotado de uma série de sementes minúsculas, sem graça nem elegância, colocadas dentro de umas ramas de algodão embebidas em água durante uns dias e aquecidas pelo sol, sempre pálido e tímido, o que entra pela minha janela. E no entanto, no entanto, como me ocorre tantas vezes pensar, é tão verdade que as maravilhas da vida estão é nestes minúsculos e irrisórios acontecimentos que vivem e se desenvolvem na dimensão de tantos "no entanto" que escapam à vida macroscópica que só tem olhos para o que é grande, uniforme e transacionável, ruidosa e que arrasta milhões de pessoas atordoadas. Plantei uma floresta de jacarandás, um facto absolutamente extraordinário que atesta aos gritos que entre humanos e não humanos existe um vínculo, uma cadeia de colaboração que dá origem à vida que garante a continuidade da nossa existência coletiva. É aqui, neste ponto de encontro, neste cruzamento, nesta precisa conexão que reside o segredo de tudo, do tudo, disso que andamos à procura como zombies e do qual nos andamos a afastar a uma velocidade estonteante. Eu falei com a semente na linguagem que ela percebe e ninguém me ensinou nenhum código nem tive que aprender programação ou criar um algoritmo. A IA não meteu para aqui nem prego nem estopa, as sementes e eu colaborámos em silêncio, devagarinho, com muito cuidado e delicadeza, intuitivamente, penso que se pode chamar a isso, amor. E volto sempre ao mesmo lugar. O que se situa à margem de tudo, nesta dimensão do "no entanto", é esta força misteriosa, de linguagem intuitiva, que não tem pressa nem código que se chama "amor". Cristalino como um diamante, elegante como a brisa, delicado como uma pluma...a força que ergue e sustenta as hastezinhas que despertaram no algodão em rama à luz que entra pela janela.

23 maio 2025



quarta-feira, 30 de abril de 2025

Dias que são só dias

Há dias que nascem sem assunto, sem corrente, sem centro de gravidade, o pensamento foge-nos, traquinas e errático, como as borboletas, beijando esta flor, cumprimentando aquela outra, deixando-se levar pela aragem, círculos de fantasia sem rumo certo, sem espartilhos e sem propósitos. Gosto destes dias desfocados e sem resultados, não espero nada nem ninguém, sentada no chão à frente do baú colhendo objetos sem nome nem apelido ou utilidade, brasas sem labaredas, histórias sem enredos, cores sem formas, alma sem humores. Contemplo sem olhar nada em concreto, penso sem seguir pista alguma, oiço, ao longe os passos do tempo e como o pêndulo, vou e venho e venho e vou, fujo de mim, escondo-me e tento não me encontrar, não tenho assunto nem ideias, só mesmo o dia. Apenas isso.

8 março 2025

Viva a Ciência!

A fotografia da janela da sala de minha casa, à primeira vista, pode parecer que nada tem a ver com a ressonância magnética que ontem fiz, mas tem. O que se passa atrás da janela iluminada neste amanhecer ainda brumoso sintrense, só pode ser desvendado se me aproximar, encostar a cara à vidraça e espreitar. Mover-me-á o grau de curiosidade que me animar, claro. A luz, intensamente amarelada e quente, num cenário tão pálido e deslavado é suficientemente misteriosa para excitar a minha imaginação e é isso que me leva a aproximar-me, quero saber...e foi este pensamento que me entreteve nos longos 25 minutos que durou a ressonância magnética a que me submeti ontem. E enquanto o barulho ensurdecedor que resultava da vibração do íman gigantesco que rodeava o meu corpo enchia o meu entorno, o meu pensamento estava com os quarks dos protões dos meus átomos de hidrogénio, os veículos que iriam permitir aos técnicos e médicos ver o que se passa por trás da minha vidraça iluminada, que mistério está guardado nos tecidos e estruturas que formam o meu interior. Tentei sentir como esses meus simpáticos e prestáveis quarks se alinhavam ao capricho dos impulsos magnéticos que a máquina ia produzindo, mas acho que foi apenas um wishfull thinking pois, para nosso grande desespero, essas nossas estruturas subatómicas não nos obedecem, são rebeldes aos nossos caprichos, que não às ordens das máquinas infernais, hélàs. Tive pena que terminasse o exame pois é difícil podermos abstrair dos ruídos caóticos e dispersivos que são o nosso dia-à-dia e focalizarmo-nos nos mistérios que habitam as profundezas da nossa existência, no âmago do nosso ser, o que se esconde nos tecidos, nas células, no infinitamente pequeno...Ali, quieta, deitada, protegida por um poderoso campo magnético e isolada do mundo por um barulho ensurdecedor, consegui concentrar-me e conviver com o mistério que se esconde por trás, dentro dessa janela iluminada. Graças à RM. Viva a ciência!

11 março 2025



Jardim da metafísica

O meu jardim está feito de essências subtis e em permanente mutação. De formas, de cor, de sentido. Em função da brisa, da luz, do ambiente e do ar do tempo. Do silêncio místico que rodeia o desfolhar da alvorada. Saio, antes que a manhã me roube este mistério precioso, em busca da metafísica que paira no ondular da bruma rasteira entre os verdes húmidos e escorregadios e no rasto surdo do súbito esvoaçar assustado dos habitantes da noite. É o meu sangue e a minha seiva que escorrem pelas veias e capilares desta confusão de seres que brotam do chão, das pedras, das árvores, das trepadeiras sem descanso e no gorgolhar sem cessar da chuva da noite anterior. Uma voracidade lírica incontinente. A obrigada diálise da alma, pura questão de sobrevivência.

18 março 2025






Banda sonora de mim

Este disco forjou uma época da minha vida, foi a melodia que envolveu a minha vida estudantil, na Escola alemã, os exames, o estudo até altas horas, a ansiedade, o cansaço, o final de uma fase e a visão do início de uma vida profissional que me levaria à independência…mas não só. Passagens sublimes deste disco estão intimamente ligadas aos dias em que o meu pai foi operado às coronárias na Suíça, a possibilidade de ele morrer nessa operação e de nunca mais o poder ver…o seu significado e peso na minha vida, o afeto, a amizade, o amor que lhe tinha e que de repente se materializaram na minha consciência, assim, sem mais, ao som dos acordes do 1. “andamento” do Concerto de Colónia. Mas não só. Grande parte deste disco ainda é hoje a banda sonora de um determinado estado de espírito onde volto sempre que preciso, tenho necessidade ou me apetece emocionar-me, lançar no ar e deixar voar, livres, emoções e sentimentos que dão sentido à minha existência, dão consistência e razão de ser à minha maneira de ser, de estar, de sentir e agir. É como se esta música fizesse parte do meu sistema operativo, fizesse parte da engrenagem que me mantém viva e me define enquanto ser. Cada vez que oiço esta música (procuro que não sejam muitas vezes) mergulho na escuridão da sala grande de mim e vejo-me por dentro, os quadros da minha vida, os personagens, a alegria esfusiante de alguns momentos e o seu reverso, os lados mais lúgubres e rasteiros, a lama onde escorreguei nas fases menos brilhantes da minha vida…tudo isto ao som dos acordes da melodia deste concerto improvisado pelo génio do jazz que é Keith Jarrett…oiçam, de preferência à noite, sós, em silêncio e busca da paz necessária para se verem e sentirem. E encontrarem.

21 março 2025

Inteligência artificial - Ignorância artificial - Insónia artificial (A entropia aumenta sempre, é a segunda lei da termodinâmica...)

Acordei com um barulho a bater furiosamente à minha janela e a gritar por mim, era a chuva, pois, certamente, é assim que ela bate ultimamente. Ando com o sono leve, o nome do herói da minha próxima novela impede o sono profundo, uma maçada, isso sim, será este, será aquele, este não, certamente e aquele não é nome que se dê a ninguém e lá acendo a luz, para desanuviar os neurónios e ponho-me a fazer a proposta de roteiro pelo Porto de três dias de férias que uns amigos vão passar à Invicta. Um pedido que atendo sempre, por amizade, para que os amigos não passem por turistas, o pior que um ser humano pode ser, ultimamente, quando tenta sair de casa para conhecer mundos. E decidi, a estas horas de pouca energia, de recorrer à IA para ver se realmente era útil para, em menos de dez segundos, organizar um roteiro turístico, como me disseram que fazia. E certifico o seguinte:

1. Em dez segundos a IA apresentou-me um roteiro que não se apresenta a nenhum ser humano, talvez a outros colegas e amigos IA lá onde vive: desde erros de ortografia básicos, a indicação de restaurantes que não eram do Porto e ao esquecimento de atrações como possam ser a Casa da Música, a Torre dos Clérigos ou a Foz do Douro...de tudo um pouco.

2. Surpreendida com tanta "I" de Ignorância, voltei a tentar. Até fui simpática e perguntei se não se tinha esquecido daquelas atrações básicas do Porto e a ou o, não sei, agradeceu-me pela lembrança e incluiu-as na dita agenda. Quanto ao restaurante que não era no Porto, mas sim nos confins do Alto Alentejo, desculpou-se pelo erro grosseiro, mas não me deu alternativa. E fez uma nova proposta.

3. Na segunda proposta, os meus amigos iriam fazer um rally paper pela cidade do Porto em ziguezague, como aquelas sugestões do Waze que nos faz andar 20 quilómetros de carro para ir de A a B porque não percebeu que queríamos ir a pé...um desatino e um desnorteamento de percursos e trajetos que me deixou pior do que estava com a primeira proposta. Irritada, fiz-lhe notar que ir à Sé Catedral, depois à Foz e voltar aos Clérigos e no dia seguir à Livraria Lello, era um absurdo e uma asneira e voltou a pedir-me desculpa, educadamente, isso sim e fez uma terceira proposta mais disparatada ainda que as anteriores, baralha e volta a dar, desta vez fiel à segunda lei da termodinâmica que diz que o mundo caminha para uma desordem e um caos completos e assim foi. 

4. Às 4h30 da manhã, quando a chuva parou de bater-me à janela e a noite amainou, desisti de dar corda à Ignorância artificial. O Porto fica para amanhã, farei o que faço sempre, sem perder tempo a consultar mecanismos que escrevem burrices e estupidezes básicas à velocidade da luz. 

E volto à questão da identidade do meu herói. Tira-me o sono, é verdade, mas as fontes onde vou buscar ideias e construir linhagens são aqueles calhamaços de sempre onde o que se escreveu resultou de anos de estudo, de consulta de milhares de fontes e de uma reflexão vagarosa, mas cuidada. E fico em paz. Porque dar uma identidade a alguém, ainda que fictícia e fictício, tira o sono, leva tempo, não é para hoje, não sei para quando será, mas quando for, sei que fará sentido e não será fruto da ignorância artificial. 

5. Isto da Inteligência artificial que é certamente uma ignorância artificial, mais do que tudo, acabou por ser uma miserável insónia artificial...agora já tenho de me levantar...

Salcedos há tantos aqui na urbe...

E eis senão quando, o grotesco do Salcedo, ao entrar naquela sala de uma elegante mas rebuscada harmonia de cores e formas e deparar-se com Coco, é a Chanel!, não resiste e apoiando no braço de Carlos a sua súbita e afogueada comoção, solta, espetacular, no que pensava ser o francês, o seu sabujo e deslumbrado: "Madame, que vous êtes chic, à valoir!"


P.S. Fotografia gentilmente cedida por Mariana Pimentel.


18 de abril 2025



Em dia de sexta-feira santa

Lá fora chovem, intermitentes, rajadas frias e desagradáveis que varrem, em turbilhão, as ruas de ramos e folhagens arrancados às árvores castigadas, vergadas, despidas da tímida e precipitada primavera por um inverno teimoso e prepotente que nos gela e tolhe o corpo embrulhado nas lãs espessas que já queríamos ter guardado até para o ano, o braseiro aceso, a água a ferver para mais um chá, a Natureza a escorrer sem cessar a paleta que foi risonha e pujante de verdes por ela tecidos com vagar e paciência, nessa cor deslavada e tristonha que é a da chuva em dia de sexta-feira santa...

Uma alma em cada esquina

Passeando pelos caminhos e lugares da minha vila. O encanto está no que se vê e no que apenas se intui ou se imagina e sonha que poderá acontecer ou existir depois da curva da estrada ladeada de muros cobertos de uma penugem de musgo e fetos, no final da alameda conquistada pela mata por trás de um portão enferrujado pelos anos e abandono, ou no cimo da escadaria de calçada tosca e gasta, onde nos leva? Vou andando, “flanando”, quem viverá nestas casas, castigadas pelo clima e agraciadas com o pedigree dos anos, todas dentro da mesma linha, romântica e paro, ao vislumbrar, no alto da serra, o palácio encantado que inspira e acende tantos amores, proibidos ou não, de reis e rainhas…quem me dera, suspiro, não tenho remédio. Na minha vila, a beleza conjuga-se em todas as formas verbais de todos os verbos da nossa Língua. É uma melodia redonda, que ora exalta ora apazigua, ora enleva ora surpreende, pela sinceridade dos seus propósitos, pela doçura dos seus contornos, a frescura das suas formas. Inspiro o cheiro a cedro e eucalipto até ao fundo dos pulmões que abrem com um estrondo regenerador e deixam à vista a minha alma, virgem de toda esta maravilha que me rodeia, sequiosa da sua frescura perfumada e à vida dos sonhos, romances e fantasias que se escondem por trás da primeira vista. É assim a minha vila. Um estado de alma que muda a cada esquina.

9 fevereiro 2025




É sempre o mesmo cenário, e no entanto…

No entanto. É isso mesmo. Eu vivo no mundo do “no entanto”. Escrevo porque acredito no “contudo” e sonho, muito porque sou fã do “porém”. A minha vida toda tem sido a procura deste Universo regenerador que habita nas paragens que se situam sob a proteção feroz destas conjunções adversativas, verdadeiras sentinelas e seguranças deste porto-de-abrigo onde regresso sempre, para recuperar, para renascer e crescer, rumo à sabedoria. E o cenário da minha existência não precisa de mudar, aliás, geralmente não me movo muito para além destas paragens do meu dia-a-dia, e, lá está, no entanto, a minha alma, guiada pelos meus sentidos, essa sim, vagueia, viaja, celebra, embeleza-se, refina-se, deleita-se, chora, ri às gargalhadas, cultiva-se, aprende, disfruta, partilha, com humildade e abertura. Neste abrigo do tamanho da existência aprendo a ser estado de alma, um sentir tão sensível como uma pluma que baloiça na brisa delicada de um entardecer lento quase impercetível. Ou num amanhecer de bochechas rosadas entre a palidez da pele deste universo que se esconde por trás do “no entanto”. Porque é aqui, neste cenário de sempre, protegida pelas conjunções regenerativas, onde o estado de alma, cada dia, todos os dias, sempre, recupera a capacidade de olhar para a realidade sem desfalecer, sem se corromper, sem claudicar e sem se dissolver. Nem preciso de respirar fundo e de fazer grandes reflexões. A linguagem da alma é outra, alimenta-se dos sentidos. E recria-se, continuamente, no mesmo cenário de sempre, porque o seu universo está para lá do “porém” da realidade.

6 fevereiro 2025



Adoro falar com o meu Universo

Já alguma vez falaram com o vosso Universo? Atenção, que o Universo não são as galáxias distantes ou as Vias Lácteas onde a Terra e muitos outros planetas e estrelas habitam. Não! O universo é o espaço-tempo onde habitas, o hoje rodeado de tudo aquilo que te cabe no cérebro, seja na parte mais racional e fria como na mais imprevisível e artística. E cada um escolhe o Universo que mais tem a ver consigo, uma biblioteca repleta de livros, um mar plano a perder de vista, uma montanha coberta de neve, uma paisagem urbana cansada e envelhecida, uma planície de sossego ondulado, o que for que for a vossa circunstância vos oferecer, e nela que deve nascer e florescer um diálogo sobre a tua vida, a tua circunstância, o teu futuro, o teu presente...é importante poder falar, dialogar com o Universo que nos rodeia, estabelecer ligações que nos ajudem a compreender melhor essa mesma circunstância e a extrair dela aquilo que nos pode fazer mais feliz. O Universo, do que precisa é de pessoas felizes, e é isso que nos diz quando o escutamos com atenção e cuidado. Foi o que fiz hoje ao final do dia, quando o sol desceu sobre as colinas e a lua tomou o comando do céu. Sentar-me e falar com ele. Explicar-lhe o que espero da vida, o que espero do tempo, o que espero dele, Universo, que me conhece desde que existe e me acompanhará até eu fechar os olhos e deixar este mundo. E foi isso que fiz, esta noite em que senti que se abria uma nova etapa da minha vida e precisava de perguntar ao Universo se estava de acordo em que deixasse para trás esta mochila que levei aos ombros nos últimos dez anos e enveredasse pelo caminho que surgiu, tímido e balbuciante, à minha frente, ao virar da esquina desta minha última circunstância. 

E o Universo disse-me que já era hora de virar a página da década passada e de iniciar um novo capítulo da minha existência e é o que faço aqui, agora, depois desta conversa que tive com o meu Universo: iniciar um novo Capítulo da minha História. Espero que seja produtivo, justo, recompensador, um colo materno onde posso arranjar a energia para descolar e onde posso regressar se tudo correr mal. 

Adoro falar com o meu Universo!

3 fevereiro 2025

Tradições com o algoritmo certo

Mais um almoço delicioso e deliciosamente tranquilo em Biarritz das Maçãs no único e mais bonito dia de sol esplendoroso sob um teto altíssimo feito de céu azul a perder de vista, esfarrapado, aqui e ali, com restos de nuvens plácidas e parcimoniosas e já em modo de fim de semana. Vestígios na praia vizinha da nossa Biarritz, da fúria com que se enfrentaram os Deuses Neptuno e Júpiter na semana passada, um revolvendo e agitando o fundo do mar com o seu tridente, para que as ondas galgassem a terra até ao céu e o outro fulminando-o com a sua fúria feérica e ensurdecedora. Resultado: Areia esturricada e rochas à superfície e uma praia reduzida à sua mínima expressão. E com estes almoços regulares de final do mês, onde almoçamos mesmo e partilhamos genuinamente a mesa, à beira do Oceano, na Biarritz podre de chique e cheia de classe, patrocinados por Júpiter e Neptuno, se vai construindo uma tradição. Coisas boas da vida. Que não são para todos pois há que alvejar com o algoritmo certo e certeiro e isso…

31 janeiro 2025



A vista da minha janela

A vista da minha janela é um rendilhado de silhuetas delicadas e finas que recortam a suavidade pálida e límpida do céu de inverno. Oiço uma guitarra a ser dedilhada com perícia e paixão escalas que sobem e descem e desenham na minha ávida e incansável fantasia a mais bela história de amor que me é oferecida à alma quando levanto o olhar e o fixo no horizonte. Através da minha janela.

28 janeiro 2025



Vidas imaginadas

Dizem que recordar é viver. E é verdade. A vida, no presente, está cheia do nosso passado, são vezes sem conta, em que se abrem túneis de passagem a épocas remotas da nossa história que nos levam a viver episódios como se realmente estivessem a acontecer hoje. Com sons, cheiros, cores e sensações conjugadas no presente. Mas não só de recordações reais, que aconteceram no passado, vive a vida do presente. Ainda que não tenha vivido algumas das histórias do passado, posso reconstruí-las a partir de coisas que chegaram até hoje, às minhas mãos e que falam por si e me contam histórias que não sei se são verdade, mas que participam ativamente no meu presente. Ontem choquei com estas canetas, esquecidas em estojos que habitavam o fundo de uma gaveta comprida e escura. Sabia que as tinha, fiquei com imensa "tralha" que vivia nas gavetas das cómodas da minha avó que tinha pertencido ao meu avô João, pai do meu pai. Eu sabia que ele era um grande apreciador de material de papelaria, de qualidade, naqueles gavetões havia de tudo em quantidades astronómicas, bem arrumado, bem acondicionado, bem ordenado, bem classificado, com tanta delicadeza e gosto que eu passava horas e horas a olhar sem mexer, tal era fascinante, aquela biblioteca de material gráfico: papel, de várias qualidades, espessuras, formas e feitios, lápis, pretos, de cor, de carvão, de duas e três cores, grossos, finos, pequenos, grandes, embrulhados em papel de seda, por estrear, borrachas, afia-lápis, mata-borrão, envelopes, tantos envelopes e agrafadores, balanças, furadores, vários, e mais além, numas caixas deliciosas de folha, os tinteiros, de cores variadas e de várias marcas, réguas, compassos, transferidores, blocos, gordos, finos, enormes, pequeníssimos, eram horas a saltar de uma coisa para outra sem mexer em nada, a simples vista fazia a festa e empurrava a tarde até à noite, já quase à hora de voltar para casa.

Era tudo do teu avô, dizia a minha avó, com respeito e também era por isso que não me atrevia a mexer embora os dedos tremessem de vontade de mexer em tudo, apenas pelo prazer de tocar coisas tão belas, tão arrumadinhas e em tanta quantidade. Sentia-me dona de uma loja e na infância, quem não gostava de brincar às lojas? Eu tinha ali material verdadeiro para poder ter uma loja mais a sério do que aquelas bancadas de venda de fruta de plástico. E entre aquela profusão exorbitante de material, havia as canetas do avô João, estas que estão na fotografia. Verdadeiros tesouros cujas pontas deslizavam pelo papel como uma serpente: com suavidade e precisão. 

Não conheci o meu avô, mas sei muito dele pelas histórias e sobretudo por este material que chegou aos meus dias e que fui admirando e usando ao longo dos anos e que hoje se limita a poucas coisas, entre elas as canetas. Para a época, algumas destas canetas eram de uma modernidade radical apenas apreciadas por verdadeiros profissionais do ramo ou então por estes aficionados devotos como o meu avô, que era médico pediatra e nada tinha a ver com o negócio de papelaria. 

E é assim, com estas histórias e estes objetos venerados que reconstruo o avô que nunca conheci e sinto as afinidades que teria e tenho com ele. Imagino-o a ordenar e arrumar todo aquele material, a abrir as caixas quando as encomendas chegavam a casa, a passar as mãos delicadamente pelo papel de gramagem pesada, encher as canetas no tinteiro modernista da secretária, limpá-las, usá-las com carinho e verdadeiro deleite de colecionador, hoje uma, amanhã, para aquela ocasião, outra, o tempo decorria com bastante mais vagar e serenidade para que esses prazeres pudessem ser gozados até à última gota de satisfação. Os gozos genuínos destes pequenos prazeres da vida dilatavam o tempo e prolongavam a vida talvez não em quantidade, mas de certeza em qualidade. 

A partir daqui, a partir destas canetas trazidas para o presente por pura casualidade, a história do meu avô começou a cobrar forma e a fazer parte da minha vida de hoje. Porque imaginar também é viver.

28 janeiro 2025



Memórias agradecidas

Não era porque queríamos ou gostávamos, mas sim porque era um dever e os deveres não só ocupavam uma grande parte da nossa vida com milhares de obrigações e afazeres como ameaçavam e podiam comprometer seriamente aquela outra parte feita de brincadeiras, sonhos e fantasias ...mas era assim, ser criança, na altura, para o mundo que nos rodeava e tutelava, uma fase inevitável, uma debilidade por vezes muito indesejável, uma maçada, via-se nos olhos dos pais, no tom de voz impaciente, nos beliscões que ajudavam a entrar em formação, nesses dias do dever de visita a pessoas que nos eram longínquas - habitavam os álbuns de fotografias recortadas com rendinhas como os pasteis de massa tenra - tias velhas que cheiravam a perfumes velhos, com mãos de bruxa e olhar de rapina condescendente. A lista de recomendações era interminável, não falam, não se mexem, não se riem, não fazem asneiras, aceitam tudo e dizem obrigada, sempre, ouviram? Claro que ouvíamos embora soubéssemos de cor a lenga-lenga de indicações e de contra-indicações, o senão acompanhado do chorrilho de ameaças, porque é que nos levavam a essas casas dos horrores onde podíamos perder os poucos direitos a que tínhamos direito por sermos crianças? gelados, desenhos animados, revista Tintim, sobremesa, brincadeiras? Mas levavam e acredito que gostassem que fossemos pois era uma forma de preencherem o tempo desse dever de visitar, está tão crescida, e tem uns olhos enormes, parece-se à....eu não sabia bem quem, mas era a pessoa que ficava sempre em primeiro lugar no friso das parecenças...e lá ficávamos sentados como estátuas, sem respirar, o meu irmão ganhava sempre, tinha melhores pulmões...eram horas de verdadeiro suplício, as cadeiras de pau, duras, frias, demasiado altas para os braços, as pernas que não ficavam penduradas nem aninhadas...e sim tia, não tia, obrigada tia, que bem educados que os têm, são tão bonitos, a minha mãe lançava um olhar de aprovação à capacidade de aguentarmos "a fazer pontas"(ser estátua sorridente era um suplício tão grande como aqueles exercícios de por os pés em ponta do ballet das segundas-feiras à tarde, depois da escola) tanto tempo e eu sorria-lhe de volta, agradecida por continuar a ter no ativo o conjunto de brincadeiras ameaçadas de serem suspensas sine die...era assim, ser criança quando eu era criança e ninguém se queixava nem se sentia infeliz nem frustrado nem tão-só, após essa fase, traumatizado ou vítima de abusos...fomos educados e moldados a ser adultos, era essa a finalidade de ser criança quando eu era criança, uma vez que seríamos - se tudo corresse bem - mais tempo adultos, na vida, do que crianças...era e ainda hoje me parece lógico que assim seja, viver é aprender até morrer, e os suplícios que eram as tradicionais visitas às tias velhas e feias onde a diferença com os pais era apenas a nossa estatura, fazia parte dos Manuais de Educação Infantil. E no final...não se pense que tudo era tenebroso, éramos recompensados pela tia que fosse com umas moedas e por vezes notas e uns bolos ou rebuçados, que adoçavam o final de tarde. E ao sair, a mãe, com um sorriso derretido, dava aquele abraço que, de apertado e carinhoso, iluminava a vida de brilhos tão radiantes que a sua luz ainda me chega até hoje, em forma de memória agradecida.

23 janeiro 2025


Matemática da harmonia

Quanto esplendor e magia, humildade e sabedoria, paz e energia, beleza e fantasia existem neste universo de vidas tão robustas quanto delicadas que brota no meu jardim, as hastes, a penugem, os veludos, o colorido, a folhagem, a frescura, as simetrias, as sequências, a convivência e os entrelaçados, dependências protetoras e conquistas ousadas, algoritmos por todo o lado, notas musicais, cadências que se repetem em sabedoria e eficácia. No meu jardim cresce a matemática de uma beleza que ainda não foi estudada nem decifrada nem seguida ou compreendida, somos nós os seres estranhos desviados desta equilibrada fantasia, afastados do centro de gravidade de onde brota eternamente, a matemática da harmonia.

22 janeiro 2025





O cerne da vida

A vida é assim, pétalas de uma flor ordenadas em camadas que vamos desfolhando até surgir, entre a névoa que obriga à perspicácia, o botão, o cerne, a imagem onde vive e se desenrola a nossa razão de ser.

21 janeiro 2025





 




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