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sábado, 12 de janeiro de 2013


Hoje, ao fazer as camas de lavado, em Sintra, num dos cobertores antigos, que eram das camas dos meus irmãos e agora habitam nas dos meus filhos, detetei aquela irredutível mancha de tinta azul permanente, filha da desobediência à regra de que não se pintava na cama com canetas, uma de muitas e vieram-me à cabeça algumas, a mais ingénua de todas a que me levou a mim e ao meu irmão João a colocar bem no centro do quarto das brincadeiras, a camilha que habitava sempre num canto, onde jantávamos, às vezes, de pequenos, para esconder um miserável buraco enegrecido no tapete, causado pelo cruzamento sem tino de elementos de uma caixa de experiências químicas, um líquido negro e malcheiroso que se nos transbordou - como era previsível - de um magrinho tubo de ensaio e cavalgou animadamente pelo tapete fora até comê-lo, a aflição, "e agora? Limpa depressa, ai a mãe! E agora?" O agora foi resolvido com a colocação da camilha em cima do buraco, imaginando que a minha mãe de nada se aperceberia, que ingenuidade, a mesa ali, não fazia sentido algum para um adulto, e assim foi e foi assim que ao entrar no quarto, a minha mãe, como não podia deixar de ser, pegou na mesa para pô-la no lugar e ao fazê-lo deu de caras com a brincadeira que deixara de o ser para passar a ser uma simples asneira num tapete inutilizado, gravado na galeria dos feitos sem glória da nossa infância. Viro a página, ele há tantas de páginas destas na memória e nas manchas dos cobertores, tapetes, objetos e histórias que há gerações que convivem nesta casa, que não há tempo suficiente para escrevê-las a todas.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013


Lisboa, carrancuda e de sobrolho carregado. Se calhar andou na boa-vai-ela, esta noite e com uma piela, apanhou uma chuvada que a deixou constipada! Pobre Lisboa...há dias em que até a nossa Lisboa prefere ficar em casa.



sexta-feira, 4 de janeiro de 2013


Estou a pensar que a esta hora estão os pais, irmãos, avós, tios, primos e amigos do João Clode reunidos para lhe dizerem adeus aqui na terra. Num dia tão luminoso como o de hoje, é dificil que haja luz nos corações nesse terrível momento da separação. Não está escrita a imensa dôr que todos sentem nem é possivel evitar a sensação de estar a viver um pesadelo. E no entanto. No entanto, como ontem disse o padre, comovido mas convicto, o João partiu porque Deus o considerou "maior" para aceder a vida eterna. Só a fé na Bondade de Deus permite aceitar que se "arranque" à vida e ao nosso "abraço" de mãe e pai e à "camaradagem" de irmão e amigo, um filho, um irmão e um amigo. Só a fé permite aceitar sem reservas que o vazio do João seja preenchido por um "novo anjo" que vela por todos aqueles que em vida o estimaram. É só elevando o espirito a Deus que os silêncios e vazios e saudades e dor sejam substituídos por uma alegria genuina pela nova presença "mística" do João. Exige fé. Muita fé. Muita fé mesmo! Não posso ir ao enterro. Mas partilho com todos a vontade de ter mais fé. E de pensar que a morte do João é um momento muito especial para renovar a fé ou, para os que a não teêm, abrir-se a ela. O sol brilha. Talvez seja já um primeiro sinal. Poderia chover num dia em que nasce um novo anjo?

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013


A vida ensina-nos que também são os filhos que nos ensinam a crescer com eles, à medida que vão crescendo, e crescendo, desafiando a vida, levando-nos, com eles, até às crista de ondas inimagináveis e a superá-las e a vencer os medos e as angústias que só eles nos fazem sentir. Pela mão aventureira, indisciplinada, por vezes teimosa, outras cheia de doçura e carinho, dos meus filhos, tenho ido provando sabores e cores da vida que sem eles jamais teria podido descobrir, ficariam para sempre por descobrir. Parte de mim está feita deles e por eles foi moldada com o seu próprio génio, forma de ser e estar e querer, mistérios de mim própria que só por eles sei que existem em mim. Espaços que se vão moldando à medida que vão caminhando e que me vão ensinando, como caminhar.

Momentos de dôr


Coragem também é não tê-la quando a dôr é tal que evitá-la não é mais do que o medo a sucumbir-lhe. E dôr há que os olhos devem encarar de frente, o coração aceitar com humildade e a alma assumir como inevitável. Nem tudo na vida tem razão de ser, nem tudo o que se nos oferece viver faz sentido e algumas vezes não há objetivo a cumprir. E desabamos porque simplesmente não há à mão força para resistir. Corajoso é o que aceita essa aparente derrota e se deixa ir ao fundo porque só quem bate no fundo sente o chão que o faz voltar à superficie.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013


A primeira vista formulada de 2013: a sempre serena, doce e luminosa paisagem da Serra de Sintra, da janela da minha sala. Um luxo imutavel, neste ano de 2013, em que só nos sabem falar de provações, reduções, limitações, perdas. Há luxos, na nossa vida, que jamais perderão valor, jamais serão tributados ou onerados. Saibamos desfazer-nos daquilo cujo valor pode ser reduzido e concentrarmo-nos naquilo que ganha com a nossa atenção. Esta minha paisagem quotidiana é um luxo. Podem-ma tirar, claro. Posso perdê-la, claro. Mas fico sempre com o meu olhar, que saberá fazer de qualquer paisagem, um luxo. Olhemos, com atenção. Para a primrira de 2013. Será a nossa bitola, ao longo do ano. Estou feliz com a minha. Porque até está cantada com milhões de passarocos que aqui não consigo reproduzir. 2013, um luxo! Venha ele! A todos, um abraço.



Extraordinário o povo que se reúne no dia 1 para exaltar o que é genuinamente seu, ao longo dos anos, consistentemente, orgulhosamente, fielmente, sendo capaz de ir ao encontro de milhões de outros que não exclusivamente eles, os proprietários. Fantástico! Sendo deles, é universal! Oxalá pudessemos fazer algo semelhante com tantas coisas bonitas e belas que temos! Tudo é bonito neste Concerto! A música, os fatos, as flores, o décor! Começar o ano com tanta Beleza e Harmonia é uma boa maneira de começar o ano! A juntar ao que temos. Soma e segue!

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