Hoje, ao fazer as
camas de lavado, em Sintra, num dos cobertores antigos, que eram das camas dos
meus irmãos e agora habitam nas dos meus filhos, detetei aquela irredutível
mancha de tinta azul permanente, filha da desobediência à regra de que não se
pintava na cama com canetas, uma de muitas e vieram-me à cabeça algumas, a mais
ingénua de todas a que me levou a mim e ao meu irmão João a colocar bem no
centro do quarto das brincadeiras, a camilha que habitava sempre num canto,
onde jantávamos, às vezes, de pequenos, para esconder um miserável buraco
enegrecido no tapete, causado pelo cruzamento sem tino de elementos de uma
caixa de experiências químicas, um líquido negro e malcheiroso que se nos
transbordou - como era previsível - de um magrinho tubo de ensaio e cavalgou
animadamente pelo tapete fora até comê-lo, a aflição, "e agora? Limpa
depressa, ai a mãe! E agora?" O agora foi resolvido com a colocação da
camilha em cima do buraco, imaginando que a minha mãe de nada se aperceberia,
que ingenuidade, a mesa ali, não fazia sentido algum para um adulto, e assim
foi e foi assim que ao entrar no quarto, a minha mãe, como não podia deixar de
ser, pegou na mesa para pô-la no lugar e ao fazê-lo deu de caras com a
brincadeira que deixara de o ser para passar a ser uma simples asneira num
tapete inutilizado, gravado na galeria dos feitos sem glória da nossa infância.
Viro a página, ele há tantas de páginas destas na memória e nas manchas dos
cobertores, tapetes, objetos e histórias que há gerações que convivem nesta
casa, que não há tempo suficiente para escrevê-las a todas.
E por isso vou a correr escrever. Para que as ideias escorram depressa para o papel e dêem espaço às novas que se apressam a tomar forma. Escrever é forrar as paredes interiores de ideias arrumadas.
sábado, 12 de janeiro de 2013
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
Estou a pensar que
a esta hora estão os pais, irmãos, avós, tios, primos e amigos do João Clode
reunidos para lhe dizerem adeus aqui na terra. Num dia tão luminoso como o de
hoje, é dificil que haja luz nos corações nesse terrível momento da separação.
Não está escrita a imensa dôr que todos sentem nem é possivel evitar a sensação
de estar a viver um pesadelo. E no entanto. No entanto, como ontem disse o
padre, comovido mas convicto, o João partiu porque Deus o considerou
"maior" para aceder a vida eterna. Só a fé na Bondade de Deus permite
aceitar que se "arranque" à vida e ao nosso "abraço" de mãe
e pai e à "camaradagem" de irmão e amigo, um filho, um irmão e um
amigo. Só a fé permite aceitar sem reservas que o vazio do João seja preenchido
por um "novo anjo" que vela por todos aqueles que em vida o
estimaram. É só elevando o espirito a Deus que os silêncios e vazios e saudades
e dor sejam substituídos por uma alegria genuina pela nova presença
"mística" do João. Exige fé. Muita fé. Muita fé mesmo! Não posso ir
ao enterro. Mas partilho com todos a vontade de ter mais fé. E de pensar que a
morte do João é um momento muito especial para renovar a fé ou, para os que a
não teêm, abrir-se a ela. O sol brilha. Talvez seja já um primeiro sinal.
Poderia chover num dia em que nasce um novo anjo?
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
A vida ensina-nos
que também são os filhos que nos ensinam a crescer com eles, à medida que vão
crescendo, e crescendo, desafiando a vida, levando-nos, com eles, até às crista
de ondas inimagináveis e a superá-las e a vencer os medos e as angústias que só
eles nos fazem sentir. Pela mão aventureira, indisciplinada, por vezes teimosa,
outras cheia de doçura e carinho, dos meus filhos, tenho ido provando sabores e
cores da vida que sem eles jamais teria podido descobrir, ficariam para sempre
por descobrir. Parte de mim está feita deles e por eles foi moldada com o seu
próprio génio, forma de ser e estar e querer, mistérios de mim própria que só
por eles sei que existem em mim. Espaços que se vão moldando à medida que vão
caminhando e que me vão ensinando, como caminhar.
Momentos de dôr
Coragem também é não tê-la quando a dôr é tal que evitá-la não é mais do que o
medo a sucumbir-lhe. E dôr há que os olhos devem encarar de frente, o coração
aceitar com humildade e a alma assumir como inevitável. Nem tudo na vida tem
razão de ser, nem tudo o que se nos oferece viver faz sentido e algumas vezes
não há objetivo a cumprir. E desabamos porque simplesmente não há à mão força
para resistir. Corajoso é o que aceita essa aparente derrota e se deixa ir ao
fundo porque só quem bate no fundo sente o chão que o faz voltar à superficie.
terça-feira, 1 de janeiro de 2013
A primeira vista
formulada de 2013: a sempre serena, doce e luminosa paisagem da Serra de
Sintra, da janela da minha sala. Um luxo imutavel, neste ano de 2013, em que só
nos sabem falar de provações, reduções, limitações, perdas. Há luxos, na nossa
vida, que jamais perderão valor, jamais serão tributados ou onerados. Saibamos
desfazer-nos daquilo cujo valor pode ser reduzido e concentrarmo-nos naquilo
que ganha com a nossa atenção. Esta minha paisagem quotidiana é um luxo.
Podem-ma tirar, claro. Posso perdê-la, claro. Mas fico sempre com o meu olhar,
que saberá fazer de qualquer paisagem, um luxo. Olhemos, com atenção. Para a
primrira de 2013. Será a nossa bitola, ao longo do ano. Estou feliz com a
minha. Porque até está cantada com milhões de passarocos que aqui não consigo
reproduzir. 2013, um luxo! Venha ele! A todos, um abraço.
Extraordinário o
povo que se reúne no dia 1 para exaltar o que é genuinamente seu, ao longo dos
anos, consistentemente, orgulhosamente, fielmente, sendo capaz de ir ao
encontro de milhões de outros que não exclusivamente eles, os proprietários.
Fantástico! Sendo deles, é universal! Oxalá pudessemos fazer algo semelhante
com tantas coisas bonitas e belas que temos! Tudo é bonito neste Concerto! A
música, os fatos, as flores, o décor! Começar o ano com tanta Beleza e Harmonia
é uma boa maneira de começar o ano! A juntar ao que temos. Soma e segue!
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