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segunda-feira, 21 de janeiro de 2013


Segunda-feira, 7 da manhã, abro o Outlook e a minha semana parece o 27 numa hora de ponta, atafulhada e a rebentar pelas costuras, reuniões coladinhas umas às outras, documentos e afazeres variados de pezinhos no ar ã tentar chegar ao papel de saída, uma fila de tarefas malhumoradas à espera - vê-se...em vão - por entrar na programação...e os telefonemas...porque é que eu pus alertas e avisos naquelas músicas embirrentas??!!!, olho e apetece-me fugir e penso que houve uma altura, quando era pequena, em que cheguei a acreditar que era possível fazer um jeito ao nariz e...magia...aparecia tudo feito! É isso mesmo. Eu devia era ser a Samantha, dar três jeitos ao nariz e pôr tudo a mexer-se à minha frente e a fazer o que é preciso fazer. Como o 38 quando arranca do Calvário, na "bisga"! Oh yeaaaaahhh!!!! A nice week for all of you!!"

Hoje sei como a vida são esses postais ilustrados que vamos colocando com amor na estante da nossa memória. Envelhecer é isso mesmo: possuir uma já considerável coleção de momentos, coisas, vozes, cheiros e imagens que entretêm o nosso olhar sobre o passado e cosem uns aos outros os retalhos da nossa memória. E é curioso. Porque são esses passeios tranquilos pelas paisagens de outrora que adoçam o meu olhar sobre o presente e no entanto é a doçura com que hoje percorro esses momentos que fazem deles as referências do meu presente. Parece difícil de entender mas no fundo não o é tanto assim. Tenho nas mãos uma fotografia minha dos tempos da quarta classe junto da Maria João Castelo Branco, ambas vestidas com o então tão desgradável e irritante peitilho cuja gola redonda de piqué branco espreita, no pescoço, pelo decote da camisola escura e grossa de lã virgem. Alguém usava esses peitilhos? Quem os experimentou sabe tão bem quanto eu o incómodo que era usá-los, sobretudo porque, ao não terem mangas, punham em permanente contacto com a pele as mangas dessas camisolas de lã feitas em casa que picavam até aos nervos. Hoje, a João e eu recordamos esse martírio típico da austeridade a que os nossos pais nos habituaram, essa certeza inabalável e incorruptivel de um estilo de vida sobrio e aproveitado, que outro não havia nem era dado que houvesse e isso hoje comove-nos e faz-nos sentir umas previlegiadas por termos tido a ocasião de ser guiadas por valores e princípios que vigoravam à margem das modas, dos caprichos, dos ventos. São esses os postais que forram o meu íntimo, é neles que assentam hoje as minhas convicções. E são estas convicções de hoje, feitas do passado que me permitem olhar para o passado, para esse peitilho irrequieto e enervante e sorrir. Embora, convenhamos, que o peitilho continue a ser, para todos os efeitos, o vestuário mais irritante que alguém jamais inventou!

domingo, 20 de janeiro de 2013


Foi no dia em que fui ao Centro de Desenvolvimento Comunitário da Ameixoaira da Santa Casa da Misericordia de Lisboa que me publicaram este artigo no Diário Económico. Fui ouvir e dar apoio aos empreendedores do bairro da Ameixoeira. Quando o escrevi, senti que ía ser um artigo fora do baralho. Porque, a propósito da Europa, só se ouve falar no seu dia-à-dia, contingente, cingido a resolver o imediato, jogos de cintura a curto prazo, sem alcance e fugazes. Falei de valores e arranquei esta necessidade de falar neles olhando para trás, para o momento em que tudo começou. Nessa altura, a guerra era motivo suficiente para apostar na paz. Hoje, a crise é motivo mais do que suficiente para falarmos no valor da Solidariedade, no objetivo da Solidariedade. Mas emperrámos na crise. Que teria sido da Europa se tivéssemos emperrado na guerra? É a Solidariedade que tem que ser construída cada dia, a cada hora, como o foi a paz, em 1950. Na altura tínhamos Políticos marcados pela guerra que acreditavam na Paz. Hoje temos políticos que vivem ao abrigo da crise, são indiferentes ao horror que é a miséria, o desemprego, a fome e a solidão. Somos nós todos que temos que dar uma lição valente a essa casta política desumana e egocêntrica e praticarmos a solidariedade de baixo para cima até conseguirmos varrer a classe políitica instalada. A solidariedade começa nas Ameixoeiras onde podemos dar esperança às pessoas e fazer com que sintam que não estão sós e que tudo o que as Instituições têm é para criar as condições para que ninguém passe mais provações. É um dever moral. A Solidariedade. Um valor para o século XXI. Para a Europa que eu quero construir. Depois de ouvir os aprendizes de empresários da Ameixoeira fez-me sentido o que escrevi. É isso mesmo que é preciso: lutar por valores. Afinal, nao é tão vago como pensava.

UE: valores que valem tanto a pena


Esta é uma reflexão que se impõe: Que tem a União Europeia de especial que continua a ser vista, pelos que lhe batem à porta, e apesar da crise económica, política e de valores, profunda que atravessa, como a terra prometida?
Uma União que não está disponível para dotar-se dos recursos necessários ao desenvolvimento das suas ambições? Uma União que avança aos solavancos, pressionada pelos mercados, por outros países, por outros blocos, que reage, mais do que age? Uma União sem bandeiras, sem uma missão clara, cada vez mais afastada da sua cidadania?
Irá ser possível a esta União minimalista ser solidária com os futuros membros e oferecer-lhes o enquadramento que precisam para construir a paz e prosperidade que jamais tiveram?
Como encaixar estas peças todas de forma a que possamos ter uma imagem global e coerente do que estamos a construir entre todos? Olhando para os debates em Bruxelas, o que vemos é uma querela mesquinha em torno daquilo que não queremos ser. O processo de integração passou a ser, todo ele, um custo, um fardo, um não ser. E no entanto...há quem queira entrar. Porquê?
A explicação está no que não se debate em Bruxelas, no que Bruxelas deixou pelo caminho: os valores. Aqueles que presidiram à constituição das primeiras Comunidades e que têm sido as alavancas que, nos momentos-chave, fizeram avançar o processo de integração: a paz, a liberdade, a segurança, o bem-estar, a prosperidade, a coesão, a solidariedade, a justiça, a igualdade, entre outros.
Enquanto a União Europeia for vista pelos que dela formamos parte, como um somatório de custos e não de valores e o debate, em Bruxelas, girar em torno dos valores dos custos e não sobre os custos dos valores, a União só faz verdadeiramente sentido para aqueles que sabem que os valores que representa lhes são vitais. Para esses países, pertencer à União vale qualquer custo.
Chegados aqui, é pois saudável recordar que em 1951, aquando da constituição da CECA, o valor da paz primou sobre o custo da sua realização. O bem-estar animou ingleses, gregos, portugueses, espanhóis e outros a aderir. A solidariedade foi o que justificou o alargamento histórico a leste. E hoje? Hoje olhamos para o projeto mais transcendente da História da Europa como um custo acrescentado.
Enquanto à porta da nossa consciência bate urgentemente a necessidade de recentramos a construção europeia na sua verdadeira razão de ser: os valores. É isso o que quem entra, espera. Foi por isso que a União recebeu, justamente, o Prémio Nobel. Pelo valor inestimável que é a paz. Valeu a pena!
Maria do Carmo Marques Pinto, Relatora para os Assuntos Europeus

Em memória da tia Maria Emília Raimundo, prima, tia e amiga.


"Entrega-te a Jesus Cristo e ele transformar-te-á!". Hoje dissémos adeus à tia Maria Emília Raimundo. Mais um elo da cadeia da nossa vida terrena que se desfaz e que se liga à cadeia da vida que começa com este enorme mistério que é a morte. Fomos, todos aqueles que com ela possuíamos esse elo vital, interpelados a deitar um olhar para trás e a recordar esses momentos em que convivemos com ela, imagens, conversas, a voz, episódios, épocas extensas da nossa infância, adolescência, idade adulta e até há bem pouco tempo e com ela surgem outras tantas que, entrelaçadas, formam o puzzle da vida de cada um de nós. É um olhar tingido de tristeza, sim, não a veremos mais e um sentimento de uma maior solidão, é verdade, somos e seremos imparávelmente cada vez menos a partilhar a vida cá neste mundo. Mas há também algo de sublime e trsnscendente, neste encontro com a morte, porque se trata de um momento único e o último que protagonizaremos como seres humanos.
Confrontados com este momento, tratando-se de alguém que referenciou a nossa vida, a dor é grande. Ninguém lhe escapa, a esta dor. Porém..."entrega a Cristo a dor e ele transformá-la-á em alegria". Confia, acredita, tem fé. É entregando-nos de corpo e alma, ocupando todos os espaços, momentos e interstícios em que a dor se infiltra, que a conseguiremos transformar em alegria. No final do túnel, no final dessa viagem vertical ao fundo da dor, surgirá o momento em que nada mais há a percorrer dentro de nós. Para os que acreditamos essa viagem chama-se Jesus. Para os que não acreditam na capacidade de transformação desse amor espiritual, existe ainda assim a esperança de que qualquer dor é ultrapassavel quando entramos nela com a vontade de a transformar num trampolim para a serena aceitação da nossa condição humana fugaz e transitória. Por Cristo, com Cristo e em Cristo, ou não, a nossa entrega humilde mas corajosa e incondicional a tudo o que vivemos, especialmente aos momentos de maior dor, é uma condição indispensável para descobrir à vida o que melhor tem para nos dar. Esperança e alegria profundas num dia triste e pendurado de uma época coletiva baça e deslavada. Adeus tia Maria Emília. Dê um abraço aos meus pais e a tantos outros que, como amigos seus que foram e são, estavam à sua espera para a acolher nessa sua nova vida! :-)))

domingo, 13 de janeiro de 2013


Chamou-me a atenção o meu querido amigo Zé Vasco Pimentel, amigo dessa infância que nos cai em cima quando, por distração, abrimos o primeiro armário do nosso quarto das memórias, que o tempo está guardado nas coisas. É uma grande verdade, Para nos apropriarmos dele, basta olhar para um objeto, agarrar um pensamento e obrigá-lo a descascar-se como se de uma Baboushka se tratasse, parando, quando mais nos apetece, na estação de uma das pequenas aldeias da nossa memória para passearmos pelos momentos que o nosso estado de espirito, caprichoso, escolheu, nessa tarde. Eu habito, nesta casa, que agora é minha, em cada um dos objetos que me envoltam, desde que nasci. Desde que me lembro e me consigo pensar que eles habitam comigo. Embora nem todos me pertençam, pertencem à minha memória, ao meu tempo que neles também já existe. Não tenho apego às casas porque aprendi a mudar-me com a memória e a colocá-la pelas casas por onde vou passando, nos objetos, nas rotinas, nos percursos, nos gestos, nos ambientes recriados. Onde estou, sou, e comigo, a minha memória. Momentos felizes, os de desfolhar o tempo guardado. Nas coisas e em nós.

sábado, 12 de janeiro de 2013


The Köln Concert. Memórias, recordações, saudades dos meus pais que cobram vida, nesta sala ainda cheia de momentos em que eles, e não eu, eram os protagonistas, essa voz que me oiço em percursos que não eram os meus mas agora me pertencem, cenas já vividas, mas de fora, em que agora me encontro na primeira pessoa, objetos, hábitos e rotinas que me pedem a paciência, o carinho e o cuidado a que estavam habituados e que tento adoptar, são os mesmos mas tão diferentes na minha maneira de ser, aprendo a conjugar tudo o que me rodeia e foi a vida deles, na primeira pessoa, é a minha vez de me sentar à cabeceira da mesa grande, a não deixar o fogo esmorecer na lareira, a dar corda ao relógio para que as noites adormeçam com aquelas certezas serenas de sempre, é assim que a história continua pelas vidas fora, e no entanto, há momentos em que a linha que separa o presente do desejo de voltar atrás é tão fina, tão delicada, tão ténue que...Acaba o piano de Keith Jarrett, anoiteceu, vou abrir a luz da entrada, do jardim, fazer a ronda dos afazeres, abrir camas, tirar a loiça da máquina, pôr a mesa, preparar o jantar, rotinas herdadas de uma casa, de uma vida declinada com eles. Agora sem eles, na primeira pessoa. Mas rodeada deles. Olha...acabou o gas da bilha. O que diria a minha mãe?

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