Navegamos ao sabor das ondas, no mar infinito que é a nossa vida. Só vale a verdade para o capitão do barco. Às vezes são suaves, as ondulações, outras vezes não tanto e outras ainda em que a calmaria é o pior cenário da existência. "Stille Ruhe herrscht im Wasser, ohne Regung ruht das Meer. Und bekummert sieht der Fischer, glatte Flasche, ringsumher. Keine Luft, von keiner Seite, Todesstille, furchterlich. In der ungeheuern Weite, reget keine Welle sich." Os ventos mudam por vontade dos Deuses, irritados com as verdades da Humanidade e dos humanos, cruzam-se vontades, rasgam-se os cenários, somos meros capitães do nosso barco e é assustador quando a brisa morre e de repente se faz silêncio e só sentimos os nossos próprios passos na imensidão de uma calmaria angustiante. Não há perícia que valha, tática que ajude, de nada serve a angústia, o reduto está no recolher, no final do abrandar o passo, penduradas as aparências, a sós e sós face à verdade e a verdade é que a alegria se foi. O recomeçar irá estar à vista de um longo compasso de calmaria, quando de novo formos capitães do nosso barco e não existam, por fim, mais Deuses no Universo, que tamanha ingenuidade pensar que existem Deuses, acreditar em Deuses e deixar que nos roubem a alegria...No entretanto, há que também saber viver, sem alegria. Ou olhar em volta, assustado, a calmaria, como diz Goethe.
E por isso vou a correr escrever. Para que as ideias escorram depressa para o papel e dêem espaço às novas que se apressam a tomar forma. Escrever é forrar as paredes interiores de ideias arrumadas.
sábado, 10 de maio de 2014
Sem alegria
Hoje, ao recolher-me, desci as minhas escadas mais pausadamente do que é habitual, pensei um degrau atrás do outro, prolonguei a demora em chegar, até que se fizesse silêncio, entrei, pendurei-me, fui-me deixando pelas rotinas e sentei-me. Tinham-me roubado a alegria, de forma vulgar mas eficiente, fiquei sem ela e sem palavras, sem gestos, sem pensamentos, levaram tudo, de repente, aconteceu, o sol brilha mas já não aquece, a música continua mas em silêncio, vejo os sorrisos de sempre mas já não os sinto, ainda pareço mas sou menos, cada vez menos, em queda livre, defesa um, defesa dois, defesa três, por mim abaixo, vertiginosamente, as palavras desfazem-se com os segundos, não sei se desta, conseguirei sobreviver, fecho os olhos, porque existo, sentada, é noite, arrefeceu, não sei onde estou, até hoje não sei se serve para alguma coisa estar, se é possível estar ou se vou conseguir estar, sem alegria.
sábado, 22 de fevereiro de 2014
Desconstruir a Intergeracionalidade
Gostei muito do exercício de desconstrução dos pre-conceitos que existem em torno da intergeracionalidade. Parabéns à Ana, cara, corpo e alma do Movimento "Desconstroi" e a todos os que nele participaram. Desafiarmo-nos através do olhar dos outros é um método extraordinário de fomento da inovação e renovação pessoal. As nossas Verdades não são universais e nem sequer o devem ser para nós próprios porque criam gorduras e colestrol nos mecanismos de regeneração e de mobilidade que nos conduziriam para patamares onde podemos olhar o que nos rodeia com outro grau de abertura, tolerância e compreensão. A este mecanismo-trampolim chama-se inovação. E a inovação é fundamental para acompanharmos as exigências da vida. Vimos um filme onde se iam caracterizando as várias gerações ao longo dos últimos 50 anos. Como viveram e vivem o trabalho, o amor, o lazer, o êxito, os fracassos, etc. E verifiquei, não sem uma certa surpresa, de que apesar de estar longe de pertencer à atual geração partilho bem mais dos seus valores e forma de estar na vida e de a viver do que partilho dos valores que são referência da geração que nasceu nos anos 60, como eu. Ou seja, apesar da diferença de idades e de experiência vital, a distância pode ser zero, deixando sem sentido a noção de inter-geracionalidade. A acumulação de experiência pode ser a tal gordura indesejada que nos impede de nos colocarmos na melhor posição para enfrentar as exigências da vida de hoje. Se não soubermos combater esses depósitos de Verdades universais que vamos construindo ao longo da vida...sem abandonar a riqueza que alguns depósitos têm e que podem ser úteis aos que hoje começam o percurso da vida. Engraçado. Muito engraçado. O que devemos transmitir aos mais novos? E o que nos devem eles ensinar? Só o saberemos se soubermos construir um diálogo franco, aberto, construtivo. Lá está! O exercício era mesmo esse: desconstruir para construir. Com base no diálogo, o ouro da vida. Duas coisas a reter: Capital humano e diálogo. Desconstruir e construir. Bravo, Gustavo Freitas! O UAW vai pelo bom caminho.
sábado, 1 de fevereiro de 2014
Quando um dos filhos já faz 25 anos, os mais pequenos nos passam em altura, a nossa "ratinha" já quase que dirige uma empresa, o sobrinho já vai para "a noite de Santos", as sobrinhas vão e vêm e vão e vêm, e nos fazem imensa companhia com esse vendaval de alegria que entra e sai de "sopetão" (como dizia o inefável Gabriel Alves)...quando a vida daqueles a quem demos vida e ajudámos, com amor, com preocupação (e quanta irritação, por vezes e alguma impaciência, ai o armário!), às apalpadelas, quantas vezes!, outras com as certezas que vamos adquirindo, quando essa vida desabrocha com a beleza e pujança que irradia desta fotografia e o mano começa a ter uma respeitável barba branca, chegou o tempo de começar uma nova vida, nossa, merecida, desejada de tantas coisas para fazer e viver ainda e da qual eles, os "nossos eternos miúdos" também possam sentir-se orgulhosos e na qual possam participar, como homens e mulheres feitos e amigos e conselheiros, porque não?, a vida é uma cadeia eterna de mãos que se vão dando, de formas diferentes, ora nos puxam,ora empurramos, consolamos, advertimos, recebemos e damos, reparem na fotografia e vejam como as mãos dão continuidade e sentido às gerações, ao carinho, ao compromisso. Nem sempre é fácil reunir todos e nem sempre o ambiente e o quotidiano estão isentos de fricções e desentendimentos, egoismos e orgulhos vãos e mas...há estes momentos de "dar sentido às coisas" e deitar sobre elas uma olhar com um algoritmo que identifica apenas as traves mestras da nossa existência e aponta à essência da nossa vida. E...ficamos a galgar por aí fora no silêncio, a pensar apenas desta maneira que sabe encaixar as peças soltas no sítio certo e às tantas o olhar vem ao de cima e...são todos tão bonitos que ainda por cima dá gosto só olhar.
terça-feira, 31 de dezembro de 2013
Quando um dos filhos já faz 25 anos, os mais pequenos nos passam em altura, a nossa "ratinha" já quase que dirige uma empresa, o sobrinho já vai para "a noite de Santos", as sobrinhas vão e vêm e vão e vêm, e nos fazem imensa companhia com esse vendaval de alegria que entra e sai de "sopetão" (como dizia o inefável Gabriel Alves)...quando a vida daqueles a quem demos vida e ajudámos, com amor, com preocupação (e quanta irritação, por vezes e alguma impaciência, ai o armário!), às apalpadelas, quantas vezes!, outras com as certezas que vamos adquirindo, quando essa vida desabrocha com a beleza e pujança que irradia desta fotografia e o mano começa a ter uma respeitável barba branca, chegou o tempo de começar uma nova vida, nossa, merecida, desejada de tantas coisas para fazer e viver ainda e da qual eles, os "nossos eternos miúdos" também possam sentir-se orgulhosos e na qual possam participar, como homens e mulheres feitos e amigos e conselheiros, porque não?, a vida é uma cadeia eterna de mãos que se vão dando, de formas diferentes, ora nos puxam,ora empurramos, consolamos, advertimos, recebemos e damos, reparem na fotografia e vejam como as mãos dão continuidade e sentido às gerações, ao carinho, ao compromisso. Nem sempre é fácil reunir todos e nem sempre o ambiente e o quotidiano estão isentos de fricções e desentendimentos, egoismos e orgulhos vãos e mas...há estes momentos de "dar sentido às coisas" e deitar sobre elas uma olhar com um algoritmo que identifica apenas as traves mestras da nossa existência e aponta à essência da nossa vida. E...ficamos a galgar por aí fora no silêncio, a pensar apenas desta maneira que sabe encaixar as peças soltas no sítio certo e às tantas o olhar vem ao de cima e...são todos tão bonitos que ainda por cima dá gosto só olhar.
quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
Manhã de Natal

Manhã de Natal. Há no ar, nos símbolos, nos gestos, nos olhares, nos abraços e palavras partilhadas e distribuídas pela nossa Comunidade afetiva, no coração de todos uma sinceridade, autenticidade e genuinidade de sentimentos que só este dia nos arranca de dentro de nós e os traz à flor da pele. Isso significa que o nosso coração está cheio de amor, bondade e compaixão, que o somos e que só porque não somos coerentes é que não os estendemos aos restantes dias do ano. Todos levamos dentro, cada dia, o dia de Natal. O que sentimos hoje não é artificial. O que é artificial é deixar de o fazer, dizer, sentir no dia a dia dos outros 364 dias do ano. Recorda-lo, recordarmo-nos disto é a grande tarefa de cada um, cada dia. Dou, portanto, um imenso valor a todas as mensagens de Amor que se trocam estes dias porque o Natal e o que para todos representa tem a enorme capacidade de abrir as portas do coração. É só isso. Quando, ao longo do ano, não soubermos praticar o que hoje sentimos, lembremo-nos que o Natal nos mostrou que somos capazes. E sejamos sinceros e coerentes. Custa pouco. Um bom dia de sentimentos de Natal para esta Comunidade de Amigos. A ouvir musica portuguesa porque o coração vestido de Português é mais bonito! E a poesia faz perdurar!
domingo, 13 de outubro de 2013
Viver acaba por ser o processamento de um conjunto de dados.
Podia até ser um daqueles cartões perfurados das antigas máquinas de cálculo.
Sentados algures na linha do tempo, nos bastidores de nós próprios, a nossa
consciência iria fazendo buraquinhos atrás de buraquinhos, com pachorra ou sem
ela, de uma maneira sistemática, segundo a segundo, hora a hora, cada dia,
todos os meses, ao longo dos anos. Por vezes há tempo e a necessidade de nos
sentarmos com o perfurador do nosso cartão de dados da vida, à lareira de uma
boa conversa de pão, queijo e vinho tinto, e fazer um balanço. "Olhe para
ali, amigo, vê aquele buraquinho, ali naquele dia?" E sentados com aquele
formato de papel que não existe no Stapples no colo, poderiamos verificar, com
uma aterradora certeza, a importância decisiva que aquele furinho, feito naquele
dia, àquela hora, talvez distraídamente, talvez inconsequentemente, quem sabe
se não por inércia, preguiça..."egoísmo, amigo, egoísmo..." -
sentencia o perfurador, cruzando os braços atrás da cabeça e enconstando-se,
comodamente, no cadeirão de bombazina moldado a um conforto puído pelo uso.
Baixo de novo o olhar sobre a manta da vida inexoravelmente perfurada e sigo em
silêncio o itenerário vital daquele furinho... E vejo como o caminho, a partir
daquela origem, se foi complicando, desmultiplicado por outros rumos, a maioria
deles desembocando em becos sem saída, impasses, ruturas, volta atrás, começa
de novo, energias perdidas, planicies sem horizontes, desertos de solidão,
papel branco sem notícias, sem dados relevantes, sem sentido, silêncio...
"Pois...mas
outros há dos quais te podes orgulhar, não te atormentes...queres ver?"
Mas eu não quero.
Estas análises frias de dados amachucam, deixam um sabor amargo na boca que
inviabiliza qualquer outro sabor que faça sorrir. Existem tantos furinhos na folha
da minha vida como aquele que o amigo dos bastidores me mostrou...tantos em que
podia ter feito, podia ter dito, podia, podia, podia e podia...e não fiz, não
disse, não evitei. E são estes momentos que contam, afinal. É neste cruzamento
de hipóteses futuras que se vai escrevendo a vida, furando rumos, momento atrás
de momento, minuto a minuto, cada dia, no vértice de uma pequena decisão sem
importância...volto para o meu cenário e a consciência de que posso mudar o
rumo ao cartão de dados que o perfurador que Deus me adjudicou vai gerindo de
acordo com as minhas decisões, atenua-se, esbatece-se e esmorece sob o peso da
lucidez que afinal não tenho, da inércia em que me instalei, do egoísmo do qual
não me liberto, das desculpas que me corrompem a vontade, das ocupações que me
sugam, da cobardia que tento ocultar, do espelho de mim que evito enfrentar.
Engano-me se penso que posso apagar este meu ativo de dados perfurados com uma
simples confissão ou até pelo arrependimento, que pode ser genuíno. Nem sequer
a escrita serve, quando às vezes até pode ser um ponto de partida. Afinal, para
que serve tanta análise, tanta lucidez, tanta consciência, se ante o inexoravel
perfurar do cartão de dados que é a vida, não sou capaz sequer de evitar esse
conjunto de furinhos falsamente irrelevantes que me conduzem sistematicamente a
este beco vital de uma angústia sem saída...apesar do sol estar a brilhar e dos
meus jacarandás me estarem a sorrir uma luz doce e serena, ali da minha
varanda, filtrada através da renda tão delicada dos seus braços.
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