Depois de passar em bicas dos pés entre a lixaria que vai por Lisboa, embarquei no Alfa Pendular (o nome de pendular é horrível) rumo ao Porto onde não há festa. Viajar de comboio é a forma mais simpática e civilizada de viajar. Ora bem. Cómodamente sentada, sem estar a cheirar com a ponta do nariz o estofo da cadeira reclinada do companheiro da frente, o telemovel a carregar mais o computador em cima de uma mesa ampla, folgada, o jornal, o café (muito mediocre, mas eram 7 da manhã e agradece-se) tenho Internet e posso aceder aos ficheiros do trabalho. Pelas vidraças, panorâmicas, sinto que viajo, que estou mesmo a viajar, ou seja, a paisagem vai desfilando à minha volta, tranquilamente e eu vou podendo apreciar os primeiros planos mais fugidios, os segundos, a uma velocidade cómoda que me permite ir identificando algum detalhe, e finalmente, com o devido sossego e parcimónia, o plano lá do fundo da paisagem, serrarias ondulantes ou planícies verdejantes, o mar...que maravilha, refrescante! Esperguiço-me, não incomodo, é quase como estar lá na minha sala, em casa, enquanto no entretanto, pela janela fora corre o filme do nosso país radiante e todo em flor. Recebo um abraço do querido amigo Antonio Rebello De Andrade, porque hoje é dia 13 de junho e se fosse viva, a minha mãe faria 81 anos. Logo à noite, em Sintra, vou por uma daquelas suas rosas na jarrinha ao lado da fotografia. A melhor homenagem que lhe podia fazer. De novo o mar, estamos em Espinho, quase a chegar. Que bom que é viajar. De Alpha...a desfilar a paisagem... pendular!
Ainda a propósito de informação e saltitando agora para outra pedra no charco desta deambulação, mais além, imagino também que o que vemos, porque é conduzido como "bit" através de um nervo para uma determinada zona do processamento cerebral, está condicionado ao que o terminal de chegada - a central de processamento - oferece e apenas a isso. Mas imaginemos que esse nervo, em vez de desembocar nessa central, é desviado para outra central, por exemplo, a que alberga os bits que formam as emoções, os sentimentos (se é que essa central existe, é claro). Pergunto-me: será que veríamos os sentimentos em vez de vermos a realidade física que tão familiar nos é? Que loucura! E se o desvio fosse parar à central da memória? Jesus...que será que veríamos? O passado? Maior loucura. Embora, bem vistas as coisas é tudo uma questão de condutas, terminais de chegada e mecanismos interpretativos, porque tudo são bits.E não se me diga que não há, na central da memória,mecanismos que possam processar ou interpretar os bits transportados até essa central por um nervo ótico despistado e que não se possa criar uma avenida de dois sentidos da "ótica da memória". Talvez houvesse, num primeiro momento, algum alvoroço mas estou convencida que rápidamente a circulação se restabeleceria porque o cérebro é criativo e prevalece o "instinto" de sobrevivência, logo de adaptabilidade. Estão-nos vedadas estas auto-estradas ou nunca foram criadas porque...não? Haverá alguma coisa que o impeça? Olhando para a vida passada, em que todos fomos uma célula raquitica, enfezadinha e de âmbito informativo básico, tudo me leva a pensar que o futuro é promissor no que diz respeito à aquisição de novas funcionalidades. Poderá levar milhares de anos mas é uma questão técnica de interfaces informativas. Ou seja, é como se hoje quiséssemos que a torradeira funcionasse pelo simples desejo de a por a funcionar. Era preciso que existisse um adaptador interpretativo e um qualquer circuito adequado...
