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quarta-feira, 30 de abril de 2025

Àlex Susanna

Sabias, amigo, que tenho chorado dia e noite a tua morte sem que saiba explicar o porquê desta violenta descarga emocional que percorre as minhas veias e a minha alma e desaba em lágrimas que brotam pela tua ausência, mas que, inexplicavelmente, também me ajudam a superá-la, serás tu, a dar-me a mão para que não me deixe levar pela emoção que em nada ajuda a seguir em frente aproveitando todo o bom que deixaste entre nós. Sintra é a paisagem ideal para ir bem ao fundo na dor que me atormenta e ressurgir pelas cores com que nos renova a alma de esperança e pelos horizontes que nos oferece até perder o mar de vista. Choro de tristeza e de alegria, de dor e de esperança, de tormento e de paz. São lágrimas que não acabam uma vida senão que a começam. A maior homenagem que posso pagar ao meu amigo que hoje habita o Universo e é mais uma das cores que nos fazem chorar e ao tempo nos animam a olhar com alegria para o futuro. É isso.

29 julho 2024


Lição de vida de um amigo que acabou de morrer

No sábado morreu um amigo não de longa data, mas que em pouquíssimo tempo (um escasso ano) conquistou a minha alma e se infiltrou no meu pensamento quase quotidianamente tanto pelos momentos e conversas que partilhámos como pelos livros e poemas que dele fui lendo ao longo deste último ano. 

Foi a primeira vez na minha vida que me despedi conscientemente de alguém que sabia que ia morrer pouco tempo depois. Foi ele próprio que o anunciou, sentados na sala da sua maravilhosa casa em Gelida (Catalunha) rodeado da mulher, do filho mais velho e de mais dois amigos, com uma inteireza e uma força interior que fiquei imóvel, de pedra, silenciosa, hirta, sentindo como as lágrimas iam caindo sem pudor nem culpa pela face, sem porém poder desviar o olhar do seu e das suas palavras descarnadas e cruas, sem adornos nem amortizadores nem desvios ou subterfúgios, um olhar baço mas vital, com o fio de vida que lhe restava posto inteiro na firmeza e na dignidade com que nos anunciava que esta ia ser a última vez que nos víamos entre os vivos. 

Morreu no sábado (quinze dias certos depois de nos termos visto, como nos avisou), rodeado do seus, consciente de que tinha chegado o último momento, sabendo exatamente como iria acontecer, o que aconteceria e que após a morte cerebral tudo se acabaria. Sei que sofreu muito por ver que a vida, o que mais prezava e que tinha tão cheia de tantos projetos e ideias e conversas e livros e conferências e exposições, se acabaria poucos dias depois daquele sábado que passámos em Gelida, até anoitecer. Tinha tanto para fazer ainda...

E agora? Agora fica a memória deste momento de partilha derradeira que foi especialmente intensa porque todos sabíamos que já não poderíamos ter mais uma destas tardes de conversa rica, colorida, profunda, diversa, que percorreu em poucas horas todos os Capítulos da maravilhosa História da nossa vida nesta terra, o ondular do enredo da novela humana que, apesar das nuances, é semelhante a todos. Falámos das mães, das casas de família, dos pais, dos irmãos, do casamento, de Deus, da inveja, da amizade, do poder, do amor, da poesia, das paisagens, das obras, das raízes e dos frutos a que damos origem. Falámos de se nos veríamos algum dia e a questão ficou sem resposta pelo cansaço, pelo avançar da hora, pelo chegar do inevitável momento em que dissemos o último adeus, aquele que não tem volta na ponta nem futuro. Um abraço eterno. "A reveure, Carmo..."

Agora fica este sentimento forte de irmandade e amizade que passou a habitar o meu sistema emocional e que leva um nome que sei que é o dele. Apesar de ele detestar que se desse primazia às emoções em vez da Razão. Seja. Não sei como racionalizar este sentimento de perda irreparável de uma pessoa que sei que já tinha e ia ter, no futuro próximo, uma importância capital na minha vida. E este último encontro antes da sua morte ficará para sempre como um dos momentos mais intensos, autênticos e emotivos da minha vida. A morte também é amor. 

Lição a tirar: este ano deveria ter ido muitas mais vezes a Barcelona disfrutar dele e do que tinha para ensinar e explicar sobre a vida, a poesia, a escrita e outras coisas que nos ligavam. Estúpida. Não me perdoo.

29 julho 2024




Podia ser

Podia ter nascido árvore, ou flor 
ou simples planta do meu jardim
e não ser quem sou, 
desertora de mim,
que falo melhor a língua do vento 
quando sopra à minha beira 
e me volteia, bailarino sedutor.
Podia ser a erva 
rendilhada de pérolas de orvalho,
que leva a mensagem de amor 
do jasmim em flor 
ao jovem pássaro de bico dourado
que vem matar a sede logo pela manhã
ao ribeiro perfumado de alecrim
Podia ser um desses vultos 
imponentes e severos
enraizados nas profundezas
e de braços erguidos
e abraçados à Natureza
exuberante e despreocupada
que me bate de mansinho
logo pela manhã
para conversar
nessa língua
de alguém
que sinto
mas não falo
que percebo
mas não escrevo
que podia ser
mas não sou.

25 julho 2024

Obrigada

A jantar à luz do Crepúsculo dos Deuses. Não existe na vida cenário mais bonito do que aquele que é criado pela Natureza. A nós, o privilégio de usufruí-lo e de tentar entendê-lo ou de como incorporar esta “linguagem” na nossa, bem mais espartilhada em conceitos que não ajudam muito a navegar, sem mais, nestas cores. Quando assisto a um espetáculo assim, com este vigor e intensidade, nunca deixo de me perguntar qual o nosso papel e contributo? Não vejo nenhum… portanto, inclino-me humildemente ante a grandiosidade do que outros seres, que não nós, sabem organizar. Obrigada!

22 julho 2024


Adeus amigo!

A vida que vale a pena viver, reter e reviver é a que é feita de momentos de grande intensidade seja porque o lugar onde estes momentos acontecem nos é particularmente próximo, seja porque a convivência com as pessoas que estão presentes ali, naquele momento nos suga o interesse, seja porque as pessoas com quem partilhamos esses momentos nos são particularmente queridas. Em especial quando sabemos que uma delas nos vai deixar nas próximas semanas e nos requer para que possamos passar juntos um último momento antes que a morte a leve para sempre. Por incrível que pareça e por incrível que as lágrimas que nos vão caindo pela face não tenham remédio e vão rolando sem pudor e com toda a obviedade, a verdade é que é possível viver a amizade sem que a sentença de morte interfira na conversa, nas histórias que se vão contando e comentando. No almoço que se prepara em conjunto, nos tintos com pedigree que se vão abrindo, nos poetas que se vão citando, nos livros, pinturas, exposições que se viveram em tempos, quando todos éramos uns adolescentes quarentões cheios de garra e pretensões e no final do dia vem finalmente o abraço que abarca toda a alegria e dor , toda a ternura e carinho, toda a cumplicidade e partilha, todos os anos vividos, as histórias, as imagens, os êxitos e fracassos, e também aquilo que a vida poderia ainda proporcionar mas que já não o irá fazer. A amizade é viver a vida, sem dúvida. Mas é sobretudo a partilha do último adeus com amor e integridade. Com inteireza. Com coragem. Adeus, amigo. Vamo-nos com o por do sol! Foi uma sorte conhecer-te e poder dizer que fomos amigos. Até sempre. As lágrimas são um consolo da sinceridade com que te estimámos e estimamos até aos teus últimos dias!

13 julho 2024



Razão de Ser

Basta uma boa música, uma boa companhia e uma garrafa de vinho tinto para passar uma noite - que entra com cheiro a verão molhado pela janela aberta - de uma alegria autêntica e genuína que deixa clara a razão de ser da vida. Podemos rir ou chorar, lágrimas de saudade por todos aqueles que amávamos profundamente e nos deixaram antes de tempo ou soltar gargalhadas que rasgam o silêncio da noite como se fossem chuvas de trovoadas e relâmpagos de vida a acontecer pela simples alegria de estarmos vivos e podermos celebrá-lo assim com esta simplicidade sem motivo especial. A garrafa esvazia-se, a música chega ao fim, as lágrimas de alegria enxugam-se e o sorriso já só brilha no olhar de sono e fechamos a noite com esse gesto simples e demorado que é um abraço por tudo o que realmente vale pena.


29 junho 2024


Moonlight Serenade

Nem todos têm a sorte que a vaidosa da lua venha bater à janela no final da noite, para mostrar como o mundo fica mais belo quando iluminado pelo seu brilho, ainda que este lhe seja emprestado pelo sol. A serenata que me dedilhou com os seus dedos de feiticeira, empoleirada na serra que foi batizada com o seu nome, fala-me desse palácio de renda branca e filigrana delicada que esconde o seu amor proibido pela Natureza, esses bosques baixos e frondosos, armados de trepadeiras densas e musgos fartos que o resguardam zelosamente do feitiço que leva consigo o brilho sedutor desta lua desesperadamente apaixonada. Amanhece irremediavelmente e a lua desaparece antes que seja vista a chorar o seu amor impossível e a alvura brilhante do palácio esmorece para mais um dia sem história. Que é durante o sono escuro e silencioso da noite que os deuses e as musas, as fadas e os astros, os magos e as feiticeiras que vivem nesta Serra abençoada de palácios e grutas e lagos e folhagens escrevem as histórias de amor que os humanos, ajoujados pelos fardos da vida, só sabem sonhar. Juraria ter ouvido a lua a cantar uma serenata à janela…estarei cada vez lunática…bom dia!


12 fevereiro 2025









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