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quarta-feira, 30 de abril de 2025

Obrigada

A jantar à luz do Crepúsculo dos Deuses. Não existe na vida cenário mais bonito do que aquele que é criado pela Natureza. A nós, o privilégio de usufruí-lo e de tentar entendê-lo ou de como incorporar esta “linguagem” na nossa, bem mais espartilhada em conceitos que não ajudam muito a navegar, sem mais, nestas cores. Quando assisto a um espetáculo assim, com este vigor e intensidade, nunca deixo de me perguntar qual o nosso papel e contributo? Não vejo nenhum… portanto, inclino-me humildemente ante a grandiosidade do que outros seres, que não nós, sabem organizar. Obrigada!

22 julho 2024


Adeus amigo!

A vida que vale a pena viver, reter e reviver é a que é feita de momentos de grande intensidade seja porque o lugar onde estes momentos acontecem nos é particularmente próximo, seja porque a convivência com as pessoas que estão presentes ali, naquele momento nos suga o interesse, seja porque as pessoas com quem partilhamos esses momentos nos são particularmente queridas. Em especial quando sabemos que uma delas nos vai deixar nas próximas semanas e nos requer para que possamos passar juntos um último momento antes que a morte a leve para sempre. Por incrível que pareça e por incrível que as lágrimas que nos vão caindo pela face não tenham remédio e vão rolando sem pudor e com toda a obviedade, a verdade é que é possível viver a amizade sem que a sentença de morte interfira na conversa, nas histórias que se vão contando e comentando. No almoço que se prepara em conjunto, nos tintos com pedigree que se vão abrindo, nos poetas que se vão citando, nos livros, pinturas, exposições que se viveram em tempos, quando todos éramos uns adolescentes quarentões cheios de garra e pretensões e no final do dia vem finalmente o abraço que abarca toda a alegria e dor , toda a ternura e carinho, toda a cumplicidade e partilha, todos os anos vividos, as histórias, as imagens, os êxitos e fracassos, e também aquilo que a vida poderia ainda proporcionar mas que já não o irá fazer. A amizade é viver a vida, sem dúvida. Mas é sobretudo a partilha do último adeus com amor e integridade. Com inteireza. Com coragem. Adeus, amigo. Vamo-nos com o por do sol! Foi uma sorte conhecer-te e poder dizer que fomos amigos. Até sempre. As lágrimas são um consolo da sinceridade com que te estimámos e estimamos até aos teus últimos dias!

13 julho 2024



Razão de Ser

Basta uma boa música, uma boa companhia e uma garrafa de vinho tinto para passar uma noite - que entra com cheiro a verão molhado pela janela aberta - de uma alegria autêntica e genuína que deixa clara a razão de ser da vida. Podemos rir ou chorar, lágrimas de saudade por todos aqueles que amávamos profundamente e nos deixaram antes de tempo ou soltar gargalhadas que rasgam o silêncio da noite como se fossem chuvas de trovoadas e relâmpagos de vida a acontecer pela simples alegria de estarmos vivos e podermos celebrá-lo assim com esta simplicidade sem motivo especial. A garrafa esvazia-se, a música chega ao fim, as lágrimas de alegria enxugam-se e o sorriso já só brilha no olhar de sono e fechamos a noite com esse gesto simples e demorado que é um abraço por tudo o que realmente vale pena.


29 junho 2024


Moonlight Serenade

Nem todos têm a sorte que a vaidosa da lua venha bater à janela no final da noite, para mostrar como o mundo fica mais belo quando iluminado pelo seu brilho, ainda que este lhe seja emprestado pelo sol. A serenata que me dedilhou com os seus dedos de feiticeira, empoleirada na serra que foi batizada com o seu nome, fala-me desse palácio de renda branca e filigrana delicada que esconde o seu amor proibido pela Natureza, esses bosques baixos e frondosos, armados de trepadeiras densas e musgos fartos que o resguardam zelosamente do feitiço que leva consigo o brilho sedutor desta lua desesperadamente apaixonada. Amanhece irremediavelmente e a lua desaparece antes que seja vista a chorar o seu amor impossível e a alvura brilhante do palácio esmorece para mais um dia sem história. Que é durante o sono escuro e silencioso da noite que os deuses e as musas, as fadas e os astros, os magos e as feiticeiras que vivem nesta Serra abençoada de palácios e grutas e lagos e folhagens escrevem as histórias de amor que os humanos, ajoujados pelos fardos da vida, só sabem sonhar. Juraria ter ouvido a lua a cantar uma serenata à janela…estarei cada vez lunática…bom dia!


12 fevereiro 2025









terça-feira, 25 de junho de 2024

Poemas inacabados


Tarde de inverno, recolhida
serena, pálida, esmorecida,
crepita baixinho o fogo, amarelado,
pouso as histórias do passado
versos soltos, esfarrapados
que se esvaem, sonolentos
na fumaça ondulante
silenciosa e baça.
Tarde de paz aparente
deitada na moleza
que pouco a pouco
se vai reduzindo
às brasas rubras,
e incandescentes
que fervilham na alma,
a mais crua realidade
que procura, insatisfeita,
incessante e inquieta,
a voz de um sentimento
que resiste, teimoso e inacessível
a ser palavra e melodia
de uma rima, um verso
uma canção, a poesia.
Entrada a noite,
o braseiro apagado,
na sala fria, só e desolada,
foi-se o encanto, a luz, o brilho
das memórias passadas,
reduzidos ao sabor triste e amargo
de um poema, para sempre
inacabado.

À querida tia Antónia Rebello de Andrade

 Hoje faz 89 anos a querida tia Antónia Rebello de Andrade. Para muitos, desconhecida. Para mim, família, no sentido amplo da palavra, na medida em que cresci ao som da sua existência na minha vida, em jantares, almoços, festas, momentos íntimos, momentos de enorme alegria e outros de profunda tristeza e dor, em que ela esteve sempre presente com o seu ar gozão, o seu cigarro, a musicalidade das suas pulseiras de ouro, a sua farta cabeleira loura, uma coquetterie que era e é um adorno a uma forma de ser e estar rochosa e incorruptível. Como dizia hoje de manhã, não existe um passado que termina. Existe um presente feito de realidades fïsicas palpáveis e de realidades que habitam o nosso ser, o nosso pensamento e se transmitem à nossa forma de agir como reflexos, como incorporações no nosso eu físico e que são tão ou mais reais que a realidade. A querida tia Antónia traz nela e com ela uma realidade que forma parte do meu quotidiano e por isso o celebro. Vai daqui para ela, para a querida tia Antónia Rebello de Andrade, para a Isabel RebelodeAndrade Santos e o Manuel Rebelo de Andrade, o meu abraço pelo dia de anos de hoje! Querida tia, parabéns!

😘😘😘

“Pinto Doce”, razão de ser

 Sumo de laranja marca “Pinto Doce”. Sem custos de transporte, sem custos para o produtor, garrafa re-utilizada, desperdício zero, máxima satisfação. Doce como a memória, a razão de ser, muito mais do que o sabor que vem com a recordação. Nada se perde, na Natureza, as nossas ações não são movimentos em vão, as nossas intenções trespassam o nosso corpo, viajam montadas nos comboios quânticos e impregnam as coisas, as pessoas, o nosso campo, o que nos circunda, onde tocamos, o que observamos, até mesmo o que pensamos…a árvore que deu este sumo foi plantada em intenção da minha mãe, no ano em que morreu. Não que ela gostasse de sumo de laranja em especial, mas como vontade de perpetuar a sua memória, o carinho e a saudade que deixou, o caráter que tinha, o feitio que era muito seu. Os seus anos bons, as suas amarguras, as suas tristezas e alegrias, a sua razão de ser. Não existe passado, apenas presente, é uma asneira monumental ligar a saudade a momentos do outrora. Hoje, aqui, a minha mãe está viva, a minha memória é o meu presente, sou eu, hoje, aqui e agora, o sumo exprimido de sentimentos que ela alimentou, que ela gerou, ajudou a crescerem e a solidificarem e que ajudaram a plantar esta laranjeira íntima, única, robusta e tão particular e especial como ela. Pensar é criar a nossa realidade, o nosso presente, a nossa razão de ser. Tudo o que já foi, é-o ainda e sê-lo-á sempre que quisermos e formos assim, como eu o sou agora, um presente que é eterno. Pinto Doce. Razão de ser.




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