Razão tem a Assunção Esteves de ter medo do inconseguimento. Eu vi-o e apanhei o maior susto da minha vida.
De regresso a casa, ali pelos lados da Barragem da Aguieira, noite negra por entre o arvoredo denso, formas tenebrosas que se iam vergando sobre a estrada apertada quando o luar espreitava por entre as núvens apressadas pela ventania, as mãos apertadas no volante, quando de repente me apareceu pela frente, qual Adamastor, irado, furibundo, de punhos erguidos a gritar: "Sou o inconseguimento! Sou o inconsegimento! E vou-te inconseguimentar!!!!". Abri os olhos de pânico mas arranquei de dentro da minha alma um conseguimentarei e buzinei ferozmente ao que o Inconseguimento se assustou e de um pulo elástico, saltou da ponte e mergulhou ruidosamente no Mondego. Lembrei-me da nossa Assunção Esteves, imediatamente, e parei o carro...Tem toda a razão, a nossa Presidente do Parlamento. Eu também fiquei cheia de medo com o Inconseguimento...Nem o Adamastor era tão horrendo. Mas consegui superar a prova do inconseguimento. Dobrei o Cabo, e conseguimentei. Outros Portugueses poderão também fazê-lo. A partir de hoje conseguimentaremos todos. Basta buzinar com conseguimento! Assunção amiga, não tenhas medo e buzina! Buzina com convicção e destemidamente que o Inconseguimento jamais te amedrontará!
E por isso vou a correr escrever. Para que as ideias escorram depressa para o papel e dêem espaço às novas que se apressam a tomar forma. Escrever é forrar as paredes interiores de ideias arrumadas.
terça-feira, 28 de julho de 2015
domingo, 26 de julho de 2015
Escavar e construir
Na vida tive dois brinquedos favoritos: Fazer perguntas, era o primeiro. Tantas vezes perguntei "Porquê", quando era pequena que a minha mãe, um dia me ofereceu um livro que se chamava "Porquê". Ainda o tenho. Era giríssimo. Dava respostas a tudo o que era possível, uma criança, perguntar. E ainda hoje me vejo como uma escavadora (de marca alemã, claro!) que passa o dia a escavar para encontrar a razão última e trazê-la à luz do dia para perceber como funciona. O segundo brinquedo eram as construções: Lego, Meccano, comboio elétrico, cartas e fósforos. Com tudo construía tudo. Quiz ser engenheira mas o meu professor de matemática, o temível Herr Leilich, avisou-me de que não ía conseguir lidar com o universo simbólico dos números, a minha cabeça organizava-se de acordo com palavras e aconselhou-me (à boa maneira alemã) a ir para Letras...Pena. Hoje se calhar tinha mais credibilidade do que a que pode ter alguma vez, neste país que venera, por parolice, os que percebem de números, os Humanistas...Adiante.
Ao longo da vida, estas duas facetas - escavar e construir - foram-se exercendo e estendendo a outros domínios (muitos, tantos, porque a minha curiosidade, para o bem e para o mal, não tem limites) e eis-me aqui, por um lado, a trazer à luz do dia, de forma incessante, causas e razões para perguntas que me inquietam e, por outro, a tentar construir, para essas perguntas, casas e edifícios que lhes tragam soluções.
Acho graça que o Partido Socialista tenha espalhado um reclame, um pouco por todo o lado, que diz: "Causa das causas: o (des)emprego". E penso para mim: Ainda só vão na primeira galeria das escavações. Há tempos que passei por ela...E percebo porque é que o Partido Socialista se fica por esta galeria: porque é a galeria onde o povo quer ficar. O Eldorado, para uns e outros. O passeio acaba aqui. É preciso que uns e outros se entendam exatamente na frequência em que, uns e outros, querem e podem estar. Por favor, não vamos mais longe! Uns e outros sabem que não haverá mais "empregos" mas para que os uns ganhem as eleições aos malévolos e os outros fiquem de consciência tranquila por ter cumprido com o dever de votar, o contrato é aceitável.
É, porém, lamentável. Que os partidos continuem a ficar-se por aqui e que o povo se resigne a ficar por aqui. Pela primeira galeria das causas-soluções: um país atrasado, empobrecido, com circuitos duplicados, soluções desleixadas, um desperdício brutal de uma quantidade de recursos que Deus nos deu e nos quais temos vindo a investir o que temos e o que não temos...O maior défice, nestes 40 anos de democracia, é isso mesmo: os recursos que desperdiçámos e deixámos que fossem desperdiçados pelos que nos governam, pela falta de exigência. Pela pouca ambição. Pelo comodismo primário.
Fala-se muito dos políticos. Fala-se muito dos empresários. Mas ninguém, do povo, avança para fazer auto-crítica e dizer: "A culpa é nossa, de todos nós, Cidadãos, que não soubemos nem quisemos ser ambiciosos, nem rigorosos, nem ir mais longe..."
Por isso ando pelo país, a construir. Porque depois de muito escavar, acho que a chave está em nós próprios. A chave está em construir a partir da base, as respostas que precisamos. Começando bem fundo, na galeria mais profunda da nossa inépcia: a confiança em nós próprios. Na nossa capacitação para sermos Cidadãos exigentes, co-responsáveis por tudo o que é do interesse do país e de todos nós, ambiciosos na construção da sociedade que é possível face aos recursos que Deus nos deu e aos ativos que fomos criando. Também face ao dever moral que temos de deixar uma sociedade melhor, aos nossos filhos e não uma pior e encalhada na mediocridade. É caso para dizer: Às armas, às armas, pela Pátria, lutar. E a luta é connosco próprios, que somos o nosso maior inimigo. Mas também o nosso melhor ativo. Temos um lado escuro mas também temos um lado glorioso e brilhante. O lado que eu tenho visto pelo país fora, quando é possível falar individualmente com as pessoas, ouvi-las, fazer-lhes caso, deixá.-las fazer o que sabem fazer e fazem bem. O povo fica-se pela primeira galeria. As pessoas, individualmente, querem ir bem mais longe. Querem as estrelas. Têm ideias para lá chegar. Estão dispostas a isso. Para fazê-lo há que começar a construir, um a um, um com cada um, e todos em conjunto. Pela causa certa e não pela do reclame de profundidade 1, o refúgio para a mediocridade.
Ao longo da vida, estas duas facetas - escavar e construir - foram-se exercendo e estendendo a outros domínios (muitos, tantos, porque a minha curiosidade, para o bem e para o mal, não tem limites) e eis-me aqui, por um lado, a trazer à luz do dia, de forma incessante, causas e razões para perguntas que me inquietam e, por outro, a tentar construir, para essas perguntas, casas e edifícios que lhes tragam soluções.
Acho graça que o Partido Socialista tenha espalhado um reclame, um pouco por todo o lado, que diz: "Causa das causas: o (des)emprego". E penso para mim: Ainda só vão na primeira galeria das escavações. Há tempos que passei por ela...E percebo porque é que o Partido Socialista se fica por esta galeria: porque é a galeria onde o povo quer ficar. O Eldorado, para uns e outros. O passeio acaba aqui. É preciso que uns e outros se entendam exatamente na frequência em que, uns e outros, querem e podem estar. Por favor, não vamos mais longe! Uns e outros sabem que não haverá mais "empregos" mas para que os uns ganhem as eleições aos malévolos e os outros fiquem de consciência tranquila por ter cumprido com o dever de votar, o contrato é aceitável.
É, porém, lamentável. Que os partidos continuem a ficar-se por aqui e que o povo se resigne a ficar por aqui. Pela primeira galeria das causas-soluções: um país atrasado, empobrecido, com circuitos duplicados, soluções desleixadas, um desperdício brutal de uma quantidade de recursos que Deus nos deu e nos quais temos vindo a investir o que temos e o que não temos...O maior défice, nestes 40 anos de democracia, é isso mesmo: os recursos que desperdiçámos e deixámos que fossem desperdiçados pelos que nos governam, pela falta de exigência. Pela pouca ambição. Pelo comodismo primário.
Fala-se muito dos políticos. Fala-se muito dos empresários. Mas ninguém, do povo, avança para fazer auto-crítica e dizer: "A culpa é nossa, de todos nós, Cidadãos, que não soubemos nem quisemos ser ambiciosos, nem rigorosos, nem ir mais longe..."
Por isso ando pelo país, a construir. Porque depois de muito escavar, acho que a chave está em nós próprios. A chave está em construir a partir da base, as respostas que precisamos. Começando bem fundo, na galeria mais profunda da nossa inépcia: a confiança em nós próprios. Na nossa capacitação para sermos Cidadãos exigentes, co-responsáveis por tudo o que é do interesse do país e de todos nós, ambiciosos na construção da sociedade que é possível face aos recursos que Deus nos deu e aos ativos que fomos criando. Também face ao dever moral que temos de deixar uma sociedade melhor, aos nossos filhos e não uma pior e encalhada na mediocridade. É caso para dizer: Às armas, às armas, pela Pátria, lutar. E a luta é connosco próprios, que somos o nosso maior inimigo. Mas também o nosso melhor ativo. Temos um lado escuro mas também temos um lado glorioso e brilhante. O lado que eu tenho visto pelo país fora, quando é possível falar individualmente com as pessoas, ouvi-las, fazer-lhes caso, deixá.-las fazer o que sabem fazer e fazem bem. O povo fica-se pela primeira galeria. As pessoas, individualmente, querem ir bem mais longe. Querem as estrelas. Têm ideias para lá chegar. Estão dispostas a isso. Para fazê-lo há que começar a construir, um a um, um com cada um, e todos em conjunto. Pela causa certa e não pela do reclame de profundidade 1, o refúgio para a mediocridade.
sexta-feira, 24 de julho de 2015
QUO VADIS?
Antes de transformar um país é preciso tê-lo sonhado e para transformá-lo é preciso colocar a ambição no impossível, a imaginação e a criatividade no impensável e a generosidade, a dedicação e a entrega no limite.
Hoje, em Portugal não há Políticos, não há Política. Não por falta de estratégia. Não por falta de conhecimento. Não por falta de experiência, mas sim pela falta de motivação, de ambição, de generosidade, de paixão e compaixão pelo próximo. Por egoísmo, por ego-centrismo puro e duro. "O outro" só existe e só interessa na medida em que contribui para a própria felicidade, para a satisfação e glória do ego e, porém, é na felicidade do outro que a própria faz sentido. Extrai-se, em vez de se dar, quando é dando que se recebe. Dependemos todos uns dos outros e no entanto destroem-se sistematicamente os laços que nos unem. Cada um de nós leva o princípio e o fim dentro de si próprio, a razão de ser e no entanto, nunca o indivíduo contou tão pouco e nunca foi tão indiferente, para os políticos, cuidar do indivíduo.
As palavras e as ideias que se esgrimem passam por cima de cada um de nós, não levam o nosso nome nem o nosso apelido, pouco importa a miséria, o infortúnio, a condição de cada um de nós. Não há Política se não houver paixão pelo outro, pela individualidade de cada um e compaixão pela sua condição. E nada disto se traduz em ação política, é porque não há Políticos nem se faz Política, neste país.
O que há são passeios pomposos, sem rumo e sem destino dos egos fechados sobre si próprios. E palavras, muitas palavras, só palavras, ôcas, vãs, estéreis e inconsequentes. Como se lhes pode falar de mudança? De transformação? De sonho? De amor e compaixão pelo indivíduo? Da felicidade das pessoas? Pois estes são conceitos que os afligem, os atormentam, os questionam e põem em causa a sobrevivência de todos esses egos que se compreendem e se protegem num denominador comum de mediocridade individual e ego-centrica, isolado de todos e longe de cada um de nós.
Quo Vadis?
Não há futuro sem sonho. Não há progresso sem ambição. Não há justiça sem amor e compaixão. Não há igualdade sem aceitação. Não há liberdade sem irreverência. E não há mudança sem futuro.
“Every time we think we have measured our capacity to meet a challenge, we look up and we’re reminded that that capacity may well be limitless,” President Bartlet said. “This is a time for American heroes. We will do what is hard. We will achieve what is great. This is a time for American heroes and we reach for the stars.”
terça-feira, 23 de setembro de 2014
Uma forma de estar no mundo
Portugal, a minha paixão, Europa, a minha referência, o mundo, a minha fronteira. Como uma árvore que arranca da terra, se ergue orgulhosa e floresce até aos limites da seiva criativa. Nada deve ser pensado nem feito sem que tenhamos consciência de quem somos, onde estamos e onde devemos chegar. Nada pode ser como ontem, quando cruzar os oceanos era uma façanha de um punhado de herois, a Europa se gladiava para impor uma identidade única e o nosso país deixou escapar o benefício das rotas que descobriu. Hoje, as nossas raízes são parte dessa árvore comum que é a Humanidade e não só temos a obrigação de contribuir para que floresça como devemos ter a inteligência e a tenacidade para devolver ao país os benefícios desta forma de estar no Mundo.
Que as raízes floresçam de novo!
Portugal é um país exausto, depauperado, entristecido. Sentado à porta, no degrau da pobreza, lamenta-se profundamente com a sorte que não teve, o azar que se lhe cruzou no caminho, a desgraça que lhe entrou pela casa dentro, a saudade de tudo aquilo que nunca chegará a ter. Desiludido consigo próprio, zangado com o mundo, olha fixamente o chão, sem saber para onde ir, como recomeçar, que dias virão aí? sabe-se lá...
Não é fácil falar-lhe de esperança, de elogiar as suas capacidades, de aliciá-lo com slogans, assinalar casos de sucesso que despontam aqui e ali, como cometas que não vêm para ficar. Tudo à volta e ele próprio é uma planície arrasada onde ainda cheira a fumo, no rescaldo de um grande incêndio que fechou o ciclo de uma floresta pujante e que deu frutos, que saciaram uma sede que foi letal.
Olhar de frente. Olhar-se de frente. Cortar o que resta dos coutos enegrecidos, espalhá-los pelo chão e regar. Regamos todos, bendizemos a chuva, somos muitos a começar. Somos muitos a querer mudar de vida, a pisar as cinzas, acamar o chão, para deixar crescer. Não virá ninguém ajudar-nos, nem é preciso. Acreditamos que a terra onde nascemos nunca morre nem nunca arde até à essência. As árvores nascem, crescem, morrem e renascem de novo. E um povo que tem valores levanta-se sozinho, assim como as raízes, com o tempo, florescem de novo
Não é fácil falar-lhe de esperança, de elogiar as suas capacidades, de aliciá-lo com slogans, assinalar casos de sucesso que despontam aqui e ali, como cometas que não vêm para ficar. Tudo à volta e ele próprio é uma planície arrasada onde ainda cheira a fumo, no rescaldo de um grande incêndio que fechou o ciclo de uma floresta pujante e que deu frutos, que saciaram uma sede que foi letal.
Olhar de frente. Olhar-se de frente. Cortar o que resta dos coutos enegrecidos, espalhá-los pelo chão e regar. Regamos todos, bendizemos a chuva, somos muitos a começar. Somos muitos a querer mudar de vida, a pisar as cinzas, acamar o chão, para deixar crescer. Não virá ninguém ajudar-nos, nem é preciso. Acreditamos que a terra onde nascemos nunca morre nem nunca arde até à essência. As árvores nascem, crescem, morrem e renascem de novo. E um povo que tem valores levanta-se sozinho, assim como as raízes, com o tempo, florescem de novo
domingo, 21 de setembro de 2014
É a hora
Venero o poeta que amava profundamente o nosso país e que deste modo tão místico de cantar o seu desencanto, nos deixou, porém, esta sua forma particular de entender a porta que se abria para um renascer "por entre o nevoeiro". A imagem é linda, profunda e parece que fica a ecoar pela noite dos tempos fora. Glória a este CIDADÃO-POETA de Portugal que soube amar o nosso país com todo o seu génio.
Fico maravilhada com o facto de pertencer a um povo e a uma terra que foram e são amados por Homens e Mulheres verdadeiramente excecionais como Fernando Pessoa e tantos outros, de tantas maneiras diferentes. E se é verdade que atravessamos tempos difíceis, não é menos verdade que temos recursos e capacidades que nos distinguem, diferenciam e nos elevam ao que de melhor existe no mundo.
domingo, 7 de setembro de 2014
Quando escrevo
Quando escrevo, fecho os olhos e pinto as cores e a música das palavras que vou colhendo, pela memória fora, uma a uma, o ritmo, a vírgula, a forma de uma semifusa, jorros de lilases, rosas brancas, malmequeres doirados, por vezes, um violino, no infinito de uma paisagem solitária, ténue e tão só, ao entardecer, por outras, nunca sei, não sou dona do que escrevo, que mais não é senão a alma que de olhos fechados me soa e a memória me traz, à meada de palavras que vou pintando, uma a uma, na melodia que não pedi e não peço e que é para mim, escrever.
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